Os elementos do Orfeão de Águeda que viajavam no autocarro que se despistou há quase seis anos, em Santa Maria da Feira, causando um morto e dezenas de feridos, disseram esta quarta-feira, em tribunal, que a viatura seguia com velocidade excessiva.

«A curva era muito fechada e não era para aquela velocidade. No decorrer do percurso, este senhor [motorista] já vinha com o pé um bocadinho pesado», disse Manuel Laranjeira, de 72 anos.


Este passageiro falava no Tribunal da Feira, no início do julgamento do condutor do autocarro, que responde por um crime de homicídio por negligência e 14 de ofensa à integridade física negligente, um dos quais na forma agravada.

Manuel Laranjeira não teve dúvidas de que o acidente ficou a dever-se à velocidade excessiva da viatura, adiantando que «se houvesse um bocadinho de prudência, o autocarro não tinha virado».

Questionado pelo Procurador da República sobre a condução do motorista, um outro passageiro disse que era «bastante agressiva». «Em certos momentos, com velocidade excessiva para os locais onde se encontrava», disse Alberto Figueiredo, de 56 anos.

A mesma ideia foi partilhada pela sua esposa, que também viajava no mesmo autocarro, ao sublinhar que a viatura "ia a andar tão depressa, que não conseguiu fazer a curva".

"Vimos que íamos cair todos. Começámos a entrar em pânico, porque fomos muito tempo em duas rodas", recordou esta testemunha.

Um outro passageiro ouvido pelo coletivo de juízes lamentou a forma como as vítimas do acidente foram tratadas, adiantando que todos os que viajavam no autocarro «continuam afetados psicologicamente».

«Periodicamente, verificamos que há conflito com os condutores, quando nos deslocamos. Não fomos tratados como deve ser», afirmou Manuel Lopes, de 65 anos.

O condutor da viatura, que sofreu traumatismo cranioencefálico e chegou a estar em coma, regressando ao trabalho três meses após o acidente, optou por remeter-se ao silêncio na primeira sessão do julgamento.

Na acusação, o Ministério Público (MP) diz que o arguido, de 58 anos, «conduzia desatento, não tomando as precauções devidas e de que era capaz, iniciando a aproximação à curva sem diminuir a velocidade da forma devida e sem se precaver que a podia descrever em segurança».

A defesa do arguido requereu a abertura da instrução, alegando que as causas do acidente ficaram a dever-se a falhas de manutenção no veículo acidentado.

O Juiz de Instrução confirmou que o veículo apresentava problemas que determinavam «a existência de folga no volante», mas, ainda assim, decidiu pronunciar o arguido por todos os crimes de que estava acusado.

Os factos remontam a 17 de outubro de 2009, quando o autocarro com 36 ocupantes despistou-se e capotou, numa curva do nó de ligação da Estrada Nacional n.º 223 com o IC2, em Escapães, Santa Maria da Feira.

Na noite da tragédia, o coro do Orfeão de Águeda dirigia-se para São Paio de Oleiros, em Santa Maria da Feira, onde era esperado para as celebrações do 25.º aniversário da Associação Musical Oleirense.

Do acidente resultou um morto, uma mulher de 44 anos, sete feridos graves, entre os quais uma grávida, e 20 ligeiros.