É a vergonha que leva os homens a calar-se, quando são alvo de agressões e é por esse prisma que a Associação de Apoio à Vítima (APAV) lança uma campanha, apelando a que o sexo masculino também denuncie casos de maus tratos.

Entre 2013 e 2015, segundo a APAV, o número de homens vítimas de violência doméstica aumentou quase 15%, com mais de 1.200 casos.

Ainda assim, o relatório anual da Associação sobre o ano de 2015, mostra que as mulheres continuam a ser as principais vítimas: entre adultos, foram 5.291 as que se queixaram, o que representa 87,5% do número total de casos. Lido de outra forma, houve mais de 14 casos de mulheres agredidas por dia em 2015, uma realidade que parece continuar a manter-se, se olharmos para os casos fatais de segunda-feira.

Sabemos que estatisticamente as mulheres ainda são mais vítimas deste crime do que os homens, mas aquilo que temos vindo a reparar nos nossos números é que entre 2013 e 2015 houve um aumento de quase 15% de denúncias de homens adultos vítimas de violência doméstica junto dos nossos gabinetes de apoio à vítima”, sustentou Daniel Cotrim, da direção da APAV, em entrevista à agência LUSA.

Agredidos pelas companheiras

Os dados estatísticos da APAV mostram que, em 2013, 395 homens recorreram aos serviços da associação. O número baixou ligeiramente para 393, em 2014, subiu para os 452, em 2015. No total, 1.240 homens pediram ajuda por terem sido vítimas de violência doméstica.

São sobretudo os homens mais velhos, com mais de 65 anos, as vítimas, representando 27,6% do total e em 56% dos casos denunciados, vítima e agressor têm uma relação conjugal.

As estatísticas da associação mostram que em 38,2% dos casos denunciados houve maus tratos psíquicos e em 25% maus tratos físicos, totalizando mais de 60% dos crimes denunciados. Quanto aos autores das agressões, em 60,8% dos casos são mulheres que as praticam, com idades compreendidas entre os 35 e os 54 anos (32,2%).

Campanha em curso

De acordo com Daniel Cotrim, os casos de violência doméstica nos homens têm características específicas, que os distinguem dos das mulheres: são situações em que impera a violência psicológica.

Daí que o mote da campanha passe por falar do que muitas vezes impede os homens de apresentarem queixa quando são vítimas de violência doméstica: a vergonha.

Sobretudo trabalhar esta questão e sensibilizar para as questões do medo e da vergonha, que surgem como principal barreira ao primeiro pedido de ajuda. O silêncio é uma grande arma que está do lado da agressora, na grande maioria das situações”, apontou.

A campanha vai estar disponível no site da APAV e na página de Facebook da associação, havendo também um vídeo que pode ser partilhado a partir do canal youtube.

É preciso que os homens se libertem deste peso do medo e da vergonha de pedirem ajuda, de terem medo de serem humilhados, de que não acreditem neles junto das autoridades ou das instituições. Felizmente muito se avançou e muito se aprendeu relativamente a estas questões”, defendeu Daniel Cotrim.