O alto comissário da Agência da ONU para os Refugiados (ACNUR) apelou na segunda-feira a uma "resposta solidária" da Europa à crise dos refugiados, salientando que não é dramático para Portugal se receber 4.000 pessoas.

Em entrevista na segunda-feira à RTP, António Guterres considerou que “não é um impacto dramático para a sociedade portuguesa” receber 4.000 refugiados, depois de questionado sobre se o país tem condições para o fazer.

“Importa que o Governo e os municípios possam enquadrar a atividade e garantir a integração dos 4.000 migrantes. É um problema que tem de ser resolvido, mas não é um impacto dramático na sociedade portuguesa”, declarou.


António Guterres disse ter ficado “impressionado” com a mobilização de solidariedade da sociedade portuguesa e com a criação de uma plataforma de ajuda aos refugiados, que envolve todas as organizações mais credíveis do país.

Na entrevista, o antigo primeiro-ministro português, eleito pelo PS, apelou a uma "resposta solidária" da Europa, sublinhando que, se "existisse uma verdadeira política para enfrentar o problema" dos migrantes, a crise seria "facilmente gerível".

“Não há nenhuma maneira de responder a uma crise desta dimensão se cada país agir por si, se tomar decisões tendo em conta os próprios interesses. É preciso uma resposta da Europa solidária face aquilo que em circunstâncias normais seria relativamente fácil gerir”, sublinhou António Guterres.


O responsável da ONU lamentou que não haja, na Europa, condições de receção nem uma estratégia comum que permita criar melhores condições.

“Se houvesse uma verdadeira política europeia, o problema seria gerível e isso não tem acontecido. Não há uma estratégia comum, são as pessoas que se movimentam e com um único objetivo de encontrar uma solução para o que tem sido um drama [guerra na Síria] que dura há cinco anos”, frisou.

No entender de António Guterres, é necessário que a Europa se una e que sejam criadas condições de receção e instalações aptas para receber os migrantes.

“Têm de ser criadas condições, não só para fazer a assistência elementar, mas também para as registar, para que possam ser recolocados noutros países europeus ou reenviados para os países de origem, se for o caso”, disse.

Na opinião do alto comissário da ONU para os Refugiados, para esta solução resultar é necessário um movimento de recursos e mobilização política que não tem existido.

Por isso, Guterres apelou à aprovação das propostas da Comissão Europeia que têm sido rejeitadas por diversos países.

O alto comissário das Nações Unidas lembrou que uma resposta unida "exige um investimento, uma mobilização de recursos e uma determinação política que não existe", pelo que as propostas da Comissão têm de ir "mais além" ou "correm o risco de falhar".

Quanto ao seu futuro após a saída do ACNUR, António Guterres disse que não sabe o que vai fazer a seguir.

“A minha preocupação agora é com os três meses e meio que ainda tenho pela frente. Não temos mãos a medir”, concluiu.