Em 1984, o realizador Ricardo Costa realizou o documentário ‘O nosso futebol’, em que, através da voz de António Vitorino de Almeida, o futebol era analisado como espelho dos processos histórico-políticos vividos em Portugal desde finais de 1800.

O facto de o futebol estar presente no top das notícias das últimas cinco semanas faz surgir a óbvia questão: qual é o seu significado no Portugal de agora? Com o iminente início da fase final do campeonato europeu, esta pergunta torna-se ainda mais saliente, como o foi no Mundial de 2014. Para entender isso, é suficiente pensar no significado simbólico que o jogo Alemanha-Portugal assumiu e a extrema desilusão, que foi bem além do jogo em si, por aquela derrota por 4-0.

Agora a situação mudou bastante. Na rua já não temos manifestações com o lema ‘A Merkel Não Manda Aqui’. A luta para a defesa dos direitos sociais inscritos na constituição, que se viam ameaçados pelas ingerências externas deu lugar a uma luta cujo objetivo, a defesa da escola privada, parece quase oposto.

 

E isso é indicador da mudança política e da consequente inversão a nível de austeridade. São sinais desta mudança também a aprovação da lei das 35 horas para a função pública e as conquistas que os estivadores alcançaram ao fim de mais de um mês de greve. Depois dos 4 anos de luta que se seguiram à aprovação do novo Regime Jurídico do Trabalho Portuário em 2012, o resultado obtido não pode deixar de ser interpretado à luz do novo rumo institucional.

 

Entretanto, algumas questões nos lembram que o espectro da austeridade está sempre atrás da esquina. As ameaças de sanções a Portugal (e Espanha) por parte da União Europeia por causa dos défices excessivos e a recente visita do Presidente português à Alemanha falam-nos abertamente disso.

 

 

Ficha técnica


O Barómetro de Notícias é desenvolvido pelo Laboratório de Ciências de Comunicação do ISCTE-IUL como produto do Projeto Jornalismo e Sociedade e em associação com o Observatório Europeu de Jornalismo. É coordenado por Gustavo Cardoso, Décio Telo, Miguel Crespo e Ana Pinto Martinho. A codificação das notícias é realizada por Rute Oliveira, João Lotra e Sofia Barrocas. Apoios: IPPS-IUL, Jornalismo@ISCTE-IUL, e-TELENEWS MediaMonitor / Marktest 2015, fundações Gulbenkian, FLAD e EDP, Mestrado Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação, LUSA e OberCom.

Análise de conteúdo realizada a partir de uma amostra semanal de 414 notícias destacadas diariamente em 16 órgãos de comunicação social generalistas. São analisadas as 3 notícias mais destacadas nas primeiras páginas da Imprensa (CM, Público, JN, DN e Jornal i), as 5 primeiras notícias nos noticiários da TSF, RR e Antena 1 das 8 horas, as 5 primeiras notícias nos jornais televisivos das 20 horas (RTP1, SIC e TVI) e as 3 notícias com mais destaque nas páginas online de 5 órgãos de comunicação social generalistas selecionados com base nas audiências de Internet e diversidade editorial (amostra revista anualmente). Em 2016 fazem parte da amostra as páginas de Internet do Público, Expresso, Sol, TVI24 e SIC Notícias.