O protocolo entre o Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e a Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS), fundada em 2009 pelo dono dos supermercados Pingo Doce, Alexandre Soares dos Santos, um dos visados num dos graffiti do ensaio visual do sociólogo Ricardo Campos - A Luta Voltou Ao Muro, está agora a inflamar a comunidade científica nas redes sociais.
 
Acusado de «censurar» a principal revista científica portuguesa, a  Análise Social, o diretor do Instituto de Ciências Sociais, José Luís Cardoso, está debaixo de fogo por alegadamente ter pretendido defender a imagem da FFMS, contra a necessária obrigatoriedade de independência científica da comunidade académica.
 
O protocolo resulta de uma parceria com esta fundação em de 29 de maio de 2009, e dita, essencialmente, que o ICS «apoiará a FFMS na definição de tópicos de investigação para projectos que se proponha realizar ou financiar» e «a FFMS indicará à Direcção do ICS os investigadores que realizarão as correspondentes actividades».
 
Além disso, e segundo destacou o catedrático em História Social, o sociólogo Robert Rowland, ligado ao ISCTE (Instituto Superior das Ciências do Trabalho e da Empresa), sua página do Facebook, onde partilhou o link para o texto do protocolo na integra, «a quantificação dos custos com as actividades referidas será estabelecida pela FFMS e aceite pelo ICS-IUL», ou seja, a interrupção da parceria teria consequências financeiras para o ICS.

O graffito mais polémico 


Em reação à divulgação do texto do protocolo, também o antropólogo e investigador do ISCTE Miguel Vale de Almeida critica a «censura» à revista Análise Social, que, no seu entender, «deve ser investigada». E alerta para o perigo da relação entre universidades públicas e organismos de empresas privadas: «O poder democrático critica-se livremente - ou não há democracia. Já o poder empresarial não, porque não é (nem tem de ser) democrático».
 
Miguel Vale de Almeida, que num post anterior já tinha lamentado e tecido fortes críticas à suspensão da revista, acusando o catedrático José Luís Cardoso de cometido «um ato de censura política e de abuso» que não estava a perceber, tem agora menos dúvidas:  
 

«Se é isto a tão incentivada - pela FCT, pelo Governo, pela UE - ligação das universidades às empresas, então não quero ligação das universidades às empresas. Sobretudo nas ciências sociais, que não são nem meros instrumentos de sistematização de informação, nem criadoras de patentes. São formas de análise e reflexão crítica da e sobre a sociedade e, como tal, o seu financiamento deve ser público. É claro que é ótimo haver também financiamento privado, nomeadamente por parte de fundações que queiram assim prestigiar-se - mas devem fazê-lo no respeito pela liberdade científica, como aliás acontece com várias instituições pelo mundo fora.
 
O poder democrático critica-se livremente - ou não há democracia. Já o poder empresarial não, porque não é (nem tem de ser) democrático. O que aconteceu com a Análise Social parece, infelizmente, revelar isto. Podia ter sido com outra revista, com outro centro. Diz-nos respeito a todos e considerações de ordem institucional ou pessoal (os nossos 'vested interests' ou as nossas afinidades eletivas) não nos devem impedir de levar este caso muito a sério».

 
GRAFITTI «OBSCENOS»?
 
A Análise Social foi suspensa na passada segunda-feira, dia 27, devido à publicação de um foto-ensaio do sociólogo Ricardo Campos com seis fotos de graffiti da cidade de Lisboa, onde constam palavras de ordem e críticas ao Governo, troika, Angela Merkel e empresários portugueses.
 
À TVI24, o diretor do ICS garantiu esta semana que « não foi contactado por nenhum dos visados» para travar a publicação das polémicas imagens, tendo colocado de parte a existência de qualquer pressão externa para a sua tomada de decisão.
 
O ensaio visual de Ricardo Campos é de « mau gosto e uma ofensa a instituições e pessoas que eu não podia tolerar», justificou terça-feira o diretor do ICS à TVI24. Além disso, esclareceu ainda, o ensaio funciona como ilustração e «não passa pelo processo de avaliação científica», ao contrário das restantes reflexões académicas contidas no número 212 da  Análise Social, que foram «submetidas à avaliação pelos pares».
 
Para o diretor cessante desta publicação, João de Pina Cabral, não há dúvidas de que está em causa «um gesto de censura». O antropólogo, atualmente a lecionar na Universidade de Kent, na Inglaterra, explicou por e-mail à TVI24 que foi informado segunda-feira pelo diretor do ICS da decisão de «retirar de circulação» o mais recente número desta revista, que se publica trimestralmente desde 1963.




A negro, a capa da revista suspensa usava como imagem o graffito contestado pelo ICS

 
Na sexta-feira, o comunicado que o diretor do ICS publicou online após uma reunião de emergência, realizada com todos os académicos deste organismo de investigação da Universidade de Lisboa reacendeu ainda mais a polémica contra a suspensão do número 212 da revista. José Luís Cardoso considera que o ensaio não devia ter sido publicado porque o autor «não justificava a seleção [de imagens] nem identificava a fonte e localização das imagens – uma das quais de conteúdo obsceno, com ofensas de natureza pessoal – violando assim um requisito indispensável em publicações de natureza científica».
 

Para o diretor do ICS, estava em causa a imagem da instituição e, por isso, refuta as acusações de censura que lhe têm sido feitas:
 

«Acresce ainda que o conteúdo de imagens desse ensaio era reproduzido na capa da própria revista e no seu interior, permitindo inferir que a responsabilidade da reprodução envolvia directamente a instituição que detém a propriedade editorial da revista, que na sua capa inscreve a identificação da Análise Social como sendo “Revista do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa”. Tratava- se, assim, de uma opção editorial que não respeitava regras deontológicas elementares nem princípios tácitos de responsabilidade institucional.

(…) Na discussão pública produzida sobre este assunto, têm sido feitas alusões inaceitáveis a gestos de “censura”. A Direcção do ICS repudia categoricamente tal insinuação e reafirma a sua determinação em prosseguir o trabalho em favor do desenvolvimento das ciências sociais, fiel aos princípios de independência e liberdade académica que sempre nortearam a sua acção».

 
Depois de ler o comunicado, o investigador Ricardo Campos, que já tinha dito à TVI24 que a suspensão da revista por causa do seu ensaio visual era um ato de «censura», acusa o diretor do ICS de ter «moralismo anacrónico» e de revelar o «extremo conservadorismo» da direção do ICS.
 

«Argumenta-se que o ensaio visual não “justificava a selecção nem identificava a fonte e localização das imagens” nem foi “submetido a sistema de arbitragem científica”. Pois não, porque a tal não era obrigado, como aliás está evidente noutros ensaios visuais publicados pela Análise Social.
 
Nada justifica, a meu ver, o moralismo anacrónico que está na base de uma atitude que revela o extremo conservadorismo de uma academia que se escandaliza com “palavras feias”, com impropérios e vernáculo de rua. Nem toda a política é bem-pensante e erudita (felizmente, diria eu…). Muito menos em tempos de agitação social, desespero e revolta. A política da rua pode chocar e escandalizar, mas deve merecer a atenção da academia (diria eu…).

Perante a qualificação das imagens como “obscenas”, apenas me apraz dizer que obsceno é todo e qualquer acto de “gestão de conteúdos” desta natureza».

 



PRÓS, CONTRAS E NOVAS IDEIAS

 
Têm sido muitos os apoios ao ensaio visual de Ricardo Campos, que acabou por ter mais visibilidade do que alguma vez teria caso fosse publicado na revista. José Neves, historiador na Universidade Nova de Lisboa e diretor-adjunto cessante da Análise Social defende que «o que se passou foi um acto de ingerência numa publicação que deve ser cientificamente imune à gestão dos interesses do instituto» dirigido por José Luís Cardoso. Num artigo escrito no jornal «Público», o historiador defende que « a separação entre a responsabilidade editorial e a propriedade da publicação é um princípio sagrado da liberdade de expressão». A Análise Social é propriedade do Instituto de Ciências Sociais, mas tem independência editorial como publicação científica.
 
O historiador José Neves refere-se também à «leviandade de quem manda destruir revistas impressas com dinheiros públicos». O diretor do ICS justificou, esta semana, à TVI24, a destruição dos exemplares: « São custos menores para a defesa da imagem do ICS». Isto porque a publicação já estava na tipografia e parcialmente impressa quando o diretor do instituto deu ordem para a suspensão da sua distribuição. À TVI24, José Luís Cardoso disse que os exemplares desta revista, efectivamente, «serão destruídos», declaração que também está a inflamar o meio académico das Ciências Sociais.
 
No artigo no jornal «Público», onde expõe a sua posição face à suspensão da revista, José Neves refere que, bem como «outros colegas da direção cessante da Análise Social», teve oportunidade de explicar a José Luís Cardoso que «estava a cometer um grave erro, prejudicial à imagem do ICS e ao prestígio da revista. E que o gesto era injustificável». Isto porque «o sociólogo Ricardo Campos estuda  graffiti, o que não significa que comungue do conteúdo dos  graffiti que estuda. As imagens que expôs são material empírico que tem recolhido e analisado nas suas investigações sociológicas. Responsabilizá-lo pelo conteúdo dos  graffiti é tão descabido como supor que um historiador que edite a correspondência de Salazar é salazarista. Ou que um outro que estude as representações visuais de Hitler seja nazi».
 
Em resposta ao artigo do diretor-adjunto da Análise Social, os investigadores e antigos responsáveis pelo ICS Jorge Vala e Manuel Villaverde Cabral, este último também anterior diretor da publicação científica, escrevem no jornal «Público», numa carta à diretora: «Queremos reafirmar o nosso apoio inequívoco à decisão do actual Director do Instituto, José Luís Cardoso, relativa à edição do último número da revista Análise Social.  O ICS foi e será sempre um espaço de liberdade intelectual, rigor científico e diversidade teórica e metodológica».

No entanto, facto é que nos últimos dias, as críticas ao diretor do ICS têm tido um efeito viral nas redes sociais, onde centenas de comentários, posts e tweets se referem à inédita suspensão da Análise Social. Os comentadores políticos também não ignoraram o tema. Por exemplo, Daniel Oliveira, ex-dirigente do Bloco de Esquerda e comentador do «Expresso», concluiu num artigo publicado sexta-feira que está em causa uma «censura burra». E classificou o que se passou com a Análise Social, a «maior revista científica portuguesa», como algo «intolerável».
 

«Um dos argumentos que o diretor do Instituto de Ciências Sociais apresentou para censurar a revista Análise Social foi a defesa do "bom nome" da instituição. Pois não há nada que mais afete o bom nome de uma instituição científica e de uma revista do que a censura. É uma mensagem com repercussões científicas, pedagógicas e até políticas. Qualquer sinal de tolerância com este ato será um apelo à autocensura», escreve Daniel Oliveira.



Contra a suspensão da revista está também o filho do fundador da Análise Social, o sociólogo João Sedas Nunes. No Facebook, o investigador tem publicado vários posts sobre o assunto, onde garante não ter dúvidas de que se tratou de um ato de censura «pura e dura».
 

«Num comunicado em que formaliza argumentário lamentável que torna muitíssimo improvável a reconsideração, o Senhor Director do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa menciona insinuações de censura. Não insinuarei; categoricamente afirmo que a decisão de suspender a publicação do último número da Análise Social por causa do ensaio visual da autoria de Ricardo Campos é um acto de censura "pura e dura."», escreve Sedas Nunes.

 
O caso da revista 212 já passou para o campo do humor. Depois do humorista Bruno Nogueira, na sua crónica diária na TSF de sexta-feira intitulada  «Cheira bem, cheira a censura», ter lamentado o facto de «ainda não aprendido a conjugar o verbo censurar no presente», o encenador e cineasta Jorge Silva Melo, na sua página do Facebook, vem dizer que talvez o melhor seja mesmo mudarem-se as palavras de ordem das manifestações públicas:
 

«Estava a pensar em mudar os slogans das manifs e dos graffitis e talvez a Paula Bobone tenha sugestões. "Ide-vos embora dentro em pouco, excelências", acho que ficava bem, não? Ou: "não apreciamos o vosso labor!" Claro que em vez de "rua" temos de lhes indicar que têm de ir para uma avenida (ou um condomínio?). Melhor ainda: "não vos sacrifiqueis mais por nós, já são horas de as crianças se deitarem..."».

 



Também no programa «Governo Sombra», emitido pela TVI24, o humorista Ricardo Araújo Pereira, assumindo-se como «analista social», trouxe o tema à conversa com os comentadores Pedro Mexia e João Miguel Tavares.
 
Ironizando sobre a suspensão da revista, Ricardo Araújo Pereira recorda que na infância, junto à sua casa, havia um graffito com a seguinte frase: « Cunhal tem um cancro. Cancro, cumpre o teu dever». Uma crítica à ideia de que a ciência social deve ser «respeitadora da decência e dos bons costumes», ou, no mínimo, do politicamente correto, prescindindo da análise social de frases como estas que são inscritas em murais públicos.

Para Pedro Mexia, está em causa uma «usurpação de funções», já que o diretor do ICS não poderia agir sobre a publicação, passando por cima das funções do diretor desta, João de Pina Cabral. « Se as pessoas começam a ficar chocadas com a interceção entre a análise académica e o ativismo politico, a sociologia começa a ser interdidata». Para Mexia o que está em causa é uma guerra de cultura social, entre várias correntes sociológicas nacionais.
 
Para João Miguel Tavares, o que aconteceu foi um «ato de censura muito estúpido», porque levou o ensaio visual A Luta Voltou ao Muro fosse visto e analisado por muitas mais pessoas, ou seja, teve o efeito contrário ao desejado.