Fernando Rafael foi segurança em vários sítios, incluindo discotecas no Algarve. Será ordenado padre, este domingo, em Quarteira. Com 28 anos, contou à Lusa que começou a rezar o terço no seu último emprego, onde passava noites inteiras sozinho, na Quinta do Lago. A sua bisavó foi a responsável por lhe ensinar as orações que faz diariamente.

A oração no silêncio e no escuro da noite começou a ganhar uma dimensão que eu não conhecia e criou-se algo de extraordinário na minha vida", relata, identificando esse momento como o seu verdadeiro encontro com Jesus.

Fez o batismo, a primeira comunhão e o crisma já em adulto, na preparação para o seminário, e encara as regras da Igreja com naturalidade, nomeadamente o celibato, considerando que as normas "fluem naturalmente" quando há uma ligação a Deus.

Deus não nos pede nada que nós não possamos aguentar e o celibato faz mais confusão às pessoas que estão de fora do que a quem o pratica", afirma, acrescentando que continuará a ser o mesmo, com virtudes e defeitos.

O futuro padre valoriza o que aprendeu no seminário, referindo que considera difícil existirem casa de “deem melhor formação” do que a que dá essa casa de retiro religioso. Viu colegas de seminário desistirem, alguns entretanto já casados, mas acredita que a vida dessas pessoas foi enriquecida por aquela experiência.

É uma vida de doação, eu faço porque quero, porque gosto de fazer, porque amo as pessoas e o que me faz mais feliz é poder levar Jesus às pessoas. Vejo isso como um dom, uma vocação", sublinha.

Fernando regressou aos estudos depois de ter deixado a escola aos 15 anos. Quando chegou ao seminário receou não conseguir acompanhar o nível de exigência intelectual no seminário, onde também estudou grego, latim e hebraico.

A exigência a nível intelectual é grande, faz-nos realmente pegar nos livros, e isso assustou-me no início, mas foi uma barreira que foi ultrapassada", declara.

Reconhece que durante a sua "caminhada" teve altos e baixos, mas nunca pensou verdadeiramente em desistir.

Continuo a ser a mesma pessoa, estou muito bem com a minha vida. Se tivesse que voltar atrás não mudaria nada", reitera.

Fernando Rafael considera ainda que muitas pessoas poderão não optar por este estilo de vida por falta de informação ou até mesmo por vergonha.

Falo por experiência própria e acredito que possa haver pessoas que tenham um dilema interior que as leve, muitas vezes, a não dar o passo", conclui.