Adelaide Alves esteve, no início de abril, dois dias sem sair de casa, com as janelas fechadas, devido à elevada concentração de pólenes na atmosfera, problema que agrava os sintomas da sua rinite alérgica crónica.

À agência Lusa, a reformada, de 82 anos, confessou que a doença respiratória, diagnosticada há mais de duas décadas, lhe causa transtorno, impossibilitando-a de se deslocar à rua nos dias mais secos e ventosos.

Adelaide Alves faz parte do universo de 20 a 30% da população portuguesa que sofre de rinite alérgica, doença alérgica mais comum no país, segundo Elisa Pedro, vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica (SPAIC).

Em declarações à Lusa, Elisa Pedro revelou que a prevalência deste tipo de alergia tem vindo a aumentar nas últimas décadas, uma situação justificada pela poluição atmosférica e mudanças no estilo de vida.

“Sabe-se que a poluição urbana altera a estrutura dos pólenes, facilitando a sua entrada nas vias aéreas e tornando-os mais alergénicos”, afirmou a médica, que também é chefe do serviço de Imunoalergologia do Centro Hospitalar Lisboa Norte - Hospital de Santa Maria.

O problema de Adelaide Alves piora durante a primavera, altura em que se verifica uma maior concentração de pólenes, principais fatores que contribuem para o aparecimento de alergias respiratórias sazonais.

“A primavera é pior por causa das flores das ervas, dos pinheiros, dos eucaliptos, de toda a flor. E, no pino do verão, por causa do pó que está no ar e do fumo dos incêndios”, admite a reformada, que vive em Ferreira do Zêzere, Santarém.

Ao contrário de Adelaide Alves, José Mendes apenas sente os efeitos da rinite alérgica na época primaveril.

“Isto acontece durante os meses de maio e junho e a partir daí não tenho mais problemas”, disse à Lusa o reformado, de 65 anos.

A doença, diagnosticada há cerca de 40 anos, também lhe causa transtorno, embora nunca o tenha obrigado a estar fechado em casa durante vários dias.

“Nunca faltei ao emprego por causa disto. Tinha que sair à rua para ir trabalhar e acabava por estar em contacto com esses pólenes. Não podia estar durante os meses de maio e junho enfiado em casa”, confessou José Mendes, salientando que o problema tem vindo a melhorar “significativamente” nos últimos anos.

De acordo com a vice-presidente da SPAIC, a rinite alérgica, apesar de não ser uma doença grave, “pode influenciar bastante a qualidade de vida dos doentes com interferência no rendimento escolar e laboral”.

A alergia aos pólenes manifesta-se ainda através de asma (respiração), conjuntivite (olhos) e eczemas (pele). Cerca de 40% dos doentes com rinite alérgica têm também asma, enquanto 18% conjuntivite, segundo a Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica.

Nem Adelaide Alves nem José Mendes estão incluídos na classe etária mais afetada. Segundo revelou à Lusa Carlos Nunes, diretor do Centro de Imunoalergologia do Algarve, os adultos, entre os 20 e os 50 anos, são os mais atingidos.

A rinite alérgica é uma patologia inflamatória crónica, que se caracteriza por espirros, obstrução nasal, pingo no nariz e comichão.

Quanto a tratamentos, Carlos Nunes destaca os anti-histamínicos via oral e anti-inflamatórios nasais, sublinhando ainda a “aplicação de vacinas anti-alérgicas”.

Como forma de minimizar o problema, os dois médicos imunoalergologistas aconselham a população a evitar atividades ao ar livre e manter as janelas das habitações e veículos fechadas quando a concentração de pólenes for elevada, assim como estar atento ao Boletim Polínico divulgado semanalmente pela Rede Portuguesa de Aerobiologia durante a primavera.