A Associação Portuguesa de Agricultura Biológica (Agrobio) defende que as autoridades devem avaliar o trabalho divulgado pela revista Visão sobre uma alegada fraude nos produtos biológicos e analisar os resultados para apurar responsabilidades.

Estamos a falar de um assunto tão sério que terá de ser verificado por outras instâncias a veracidade do trabalho feito”, disse Jaime Ferreira, presidente da Agrobio, sublinhando que é preciso também verificar como foi feita a seleção e a recolha dos produtos identificados como biológicos.

A revista Visão divulga esta quinta-feira um trabalho que inclui a análise em laboratório de 113 produtos – frutas, legumes e sementes - identificados nas lojas como biológicos.

Segundo a revista, um em cada cinco produtos de agricultura biológica vendidos em Portugal tem vestígios de pesticidas sintéticos proibidos e outros químicos tóxicos.

Numa das análises efetuadas, a uma couve identificada como proveniente da agricultura biológica, foi encontrada uma quantidade de glifosato 12 vezes superior ao máximo permitido por lei para couves de produção convencional.

O glifosato foi considerado pela Agência Internacional de Pesquisa em Cancro (da Organização Mundial de Saúde) como “provavelmente cancerígeno”.

Em declarações à Lusa, o presidente da Agrobio reagiu com cautela relativamente ao conteúdo do trabalho jornalístico, sublinhando: “o que lhe posso dizer é que identificar agroquímicos não autorizados em produtos biológicos é [sinal de] fraude. Deliberado ou por negligência, pois pode ser por contaminação”.

Face à gravidade destes indicadores, Jaime Ferreira diz que, a ser verdade, se trata de um problema de saúde pública: “Isto tem de ser colocado às autoridades competentes e elas têm de responsabilizar quem foi responsável por colocar esses produtos no mercado”.

A quantidade [de glifosato] pode ser de tal forma grave que é um problema de saúde pública e devia ser imediatamente denunciado à ASAE – Autoridade de Segurança Alimentar e Económica. (...) Pode haver pessoas que estejam a comer estes produtos e [que possam] ter problemas graves de saúde. Isto não pode ser uma coisa [abordada de forma] ligeira”.

O responsável disse ainda que a Agrobio vai “examinar ao detalhe” o trabalho divulgado e os dados revelados. “Se houver responsabilidades a apurar vamos até ao limite das responsabilidades”.

De acordo com dados da Direção Geral da Agricultura e Desenvolvimento Rural (DGADR), em 2015, a superfície de terrenos em agricultura biológica atingiu os 239.864 hectares (ha), equivalente à área do distrito do Porto, traduzindo, por um lado, a consolidação da produção biológica e, por outro, a resposta a um novo regime de apoios.

O número de produtores agrícolas biológicos tem vindo a aumentar durante a última década e em 2015 chegou aos 3.837.