Os adolescentes que utilizam os transportes não motorizados no percurso entre a casa e a escola são mais autónomos e desenvolvem melhor alguns fatores de proteção em relação ao ambiente que os rodeia. A conclusão consta num estudo da Universidade do Porto.

Este resultado surge no âmbito do projeto SALTA - Suporte do Ambiente para o Lazer e Transporte Ativo - desenvolvido pelo Centro de Investigação em Actividade Física, Saúde e Lazer (CIAFEL) da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto (FADEUP).

"Em geral, os jovens têm autonomia mais reduzida e são mais sujeitos a restrições nas suas deslocações, impostas pelos adultos", indicou Maria Paula Santos, coordenadora do projeto, para quem este comportamento tem um "impacto negativo" no seu desenvolvimento motor e social.

Durante o estudo, os investigadores verificaram que a perceção dos pais acerca da segurança da área de residência é um dos fatores associados à mobilidade independente dos jovens.

Pais mais ativos - especialmente em relação à atividade do transporte - incentivam a autonomia dos filhos, o que pode ser explicado pelo melhor conhecimento acerca do ambiente construído. "Quem anda a pé conhece melhor os caminhos", indicou a responsável.

Verificou-se também que a segurança, nomeadamente uma melhor iluminação das ruas, é "um importante preditor do transporte" para as raparigas avaliadas.

Outro dos resultados indica que a distância entre a casa e a escola influencia a escolha do transporte e que maiores distâncias associam-se a maiores níveis de transporte passivo.

"Distâncias até dois quilómetros são aparentemente as mais adequadas para promover deslocações a pé no percurso casa-escola", referiu a coordenadora.

Por seu lado, as relações sociais também influenciam o transporte não motorizado ou ativo e os jovens com maior auto eficácia, que são encorajados pelos pais e que optam pela companhia dos amigos, apresentam uma maior tendência na escolha deste tipo de deslocação.

De acordo com a investigadora, em média, uma viagem casa-escola-escola-casa, "representa cerca de 40% dos 60 minutos de atividade física moderada a vigorosa recomendada nestas idades", sendo este outro dos dados obtidos no estudo.

Para além disso, os jovens que optam pelo transporte ativo (recorrendo ao uso de bicicleta, patins e skate, por exemplo) apresentam uma maior probabilidade de terem "um melhor perfil lipídico e um menor perímetro da cintura" do que utilizadores de meios passivos, acrescentou.

Para Maria Paula Santos, "é fundamental" a criação de ambientes que apoiem e reduzam as barreiras, ao mesmo tempo que estimulam o comportamento saudável, que podem ser uma alternativa "muito valiosa" no âmbito das políticas de saúde pública.

A existência de estruturas físicas para guardar bicicletas em seguranças nas escolas e a organização de grupos de transporte (apoiados pelos pais e pelos professores), são alguns exemplos.

No estudo participaram 1.067 crianças e jovens (574 raparigas), entre os dez e os 18 anos, de escolas públicas da área metropolitana do Porto.

Os participantes foram submetidos a uma avaliação da atividade física e da perceção do ambiente construído, através de questionários e do uso de acelerómetros.

A equipa de investigação utilizou ainda informações objetivas do território, recorrendo a dados obtidos por GPS e a sistemas de informação geográfica.

No SALTA, financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) em 120 mil euros, estiveram envolvidos os investigadores do CIAFEL Andreia Pizarro, Jorge Mota, Paula Silva, Paula Queirós, Elisa Marques e Gustavo Silva.