Quase metade das vítimas de crimes de homicídio tentado e consumado, que a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) ajudou em 2015, tinha um contexto de violência doméstica, tendo o organismo acompanhado 64 crimes e atendido 845 vítimas.

Os dados foram divulgados esta terça-feira e fazem parte do relatório anual para 2015 da Rede de Apoio a Familiares e Amigos de Vítimas de Homicídio (RAFAVH), uma sub-rede especializada de apoio, criada em 2013 pela APAV.

No decorrer destes três anos, a RAFAVH acompanhou 230 crimes, entre 135 homicídios na forma tentada e 95 homicídios consumados. Na relação dos anos, a evolução mostra um aumento do número total de crimes entre 2013 e 2014, passando de 80 para 86, verificando-se posteriormente uma descida em 2015 para 64.

Durante o ano passado, a APAV apoiou 845 vítimas ou familiares e amigos de vítimas de crimes de homicídio tentado ou consumado, tendo realizado 660 atendimentos, aos quais se juntaram 16 atendimentos relativos a processos de apoio iniciados em 2013.

Houve também 129 atendimentos em situações de homicídio tentado e 40 relativos a familiares e amigos de vítimas de homicídio consumado, que transitaram de processos iniciados em 2014.

Do total dos 64 crimes acompanhados, em 2015, a APAV verificou que, em 34 casos, os crimes ocorreram num contexto de relação de intimidade, em curso ou já terminada, havendo, por isso, uma ligação direta entre vítima e homicida.

Verifica-se igualmente que, em 35 casos, a violência doméstica esteve na origem do crime.

“Conclui-se que o crime de homicídio em Portugal continua a acontecer especialmente em relações de proximidade”, aponta a APAV.

Segundo a associação, no total dos 98 utentes apoiados em 2015, 42 tinham sido vítimas de violência doméstica, o que mostra um rácio de 47%. Valores que não são muito diferentes dos anos anteriores, já que, em 2013, as vítimas de violência doméstica representavam 40% do total de utentes apoiados, número que sobe para os 45%, em 2014.

Separando os casos de homicídio tentado do homicídio consumado, é possível verificar que, em relação aos primeiros, a proporção aumenta significativamente, com as vítimas de violência doméstica a representarem 68% dos 47 casos, ou seja, mais de dois terços dos processos.

No homicídio consumado, a percentagem de vítimas de violência doméstica foi de 24% em relação ao total de pessoas apoiadas, que foram 42.

“Em termos gerais, quase metade (47%) dos processos de apoio iniciados pela APAV em 2015, relativos a homicídios tentados ou consumados, tiveram como móbil uma situação de violência doméstica”, lê-se no relatório.

Tendo por base os órgãos de comunicação social, a APAV fez um levantamento de casos de casos de homicídios, através do Observatório de Imprensa de Crimes de Homicídio em Portugal e de Portugueses no Estrangeiro, que mostrou que, no ano passado, foram mortas 154 pessoas, 122 em território nacional e 32 portugueses mortos no estrangeiro.

Também aqui, a maior parte dos crimes (26) acontece em contexto de violência doméstica. Em 52 casos houve recurso a arma de fogo e, noutros 25, a arma branca.

A maior parte das vítimas tinha entre 56-60 anos (dez) e 66-70 anos (13), havendo igualmente sete casos de crianças mortas, com idades entre os zero e os 15 anos.