As unidades de saúde têm tido aumento de produtividade muito à custa da redução dos tempos de consulta, ao mesmo tempo que a relação entre médico e doente é cada vez mais mediada pelo computador, segundo investigadores em ciências sociais.

Sabemos que os cuidados de saúde primários têm tido um processo de reforma, tem havido um aumento de produtividade, mas muitas vezes é feito à custa da redução dos tempos de consulta ou da seleção de doentes em função das suas patologias”, afirmou à agência Lusa o investigador Tiago Correia, coordenador do livro “Novos Temas de Saúde, Novas Questões Sociais” que é apresentado quinta-feira em Lisboa.

No livro do ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, a reforma dos cuidados de saúde primários é encarada como tendo sido “pouco explicada, pouco divulgada e pouco ou nada participada”.

A investigadora Lurdes Teixeira assume um aumento do número de atos médicos ou de enfermagem, mas questiona se os utentes precisarão de mais consultas ou antes de mais tempo de consulta.

Precisam, sobretudo, que independentemente do tempo de prestação do cuidado, o médico ou o enfermeiro não centre o olhar, a atenção ou a preocupação, nos registos informáticos dos indicadores e promova uma efetiva e satisfatória interação”, refere a autora.

Segundo o artigo, a relação médico e enfermeiro/doente é “cada vez mais mediada pelo computador”. Além disso, o imperativo de cumprir os indicadores da unidade de saúde pode “promover uma preferência oculta” por indicadores (ou utentes) mais facilmente alcançáveis, respondendo não à necessidade do doente mas antes à escolha do indicador que é mais produtivo.

Noutro artigo do livro lançado pelo ISCTE, da autoria de Rosemarie Andreazza, o investigador Tiago Correia considera que fica demonstrado que os utentes demonstram uma “enorme racionalidade” na forma como usam os cuidados de saúde, ao contrário do que muitas vezes é dito pelos decisores políticos quando se deparam com os atendimentos nas urgências hospitalares, por exemplo.

Mesmo utilizando os cuidados de saúde primários, reconhecendo seu médico de família, os utentes avaliam que este é um lugar para trocar receitas, para medir a tensão e obter a licença de trabalho. Parecem não os visualizar como locais de produção de cuidado. Creditam ao hospital este papel”, refere a autora do artigo.

Rosemarie Andreazza pretende mostrar ainda que é o próprio sistema que vai empurrando os doentes nas suas escolhas: “a ação dos doentes é movida pela necessidade de encurtar tempos e diminuir com isto os processos de adoecimento, dor e sofrimento”.

Para Tiago Correia, o livro, que é lançado quinta-feira pelo ISCTE, pretende “dar visibilidade a efeitos desconhecidos em reformas prosseguidas no Serviço Nacional de Saúde nos últimos anos”, bem como tenta “decifrar os comportamentos dos cidadãos na forma como consomem e acedem aos recursos de saúde”.

Esta obra, de acordo com o próprio ISCTE, é apadrinhada pelo ministro da Saúde, Adalberto Campos Fernandes.