O antigo apresentador Carlos Cruz classificou esta quinta-feira, a saída em liberdade condicional, como "mais uma etapa de uma longa maratona" para provar a inocência, junto de todas as instâncias judiciais, incluindo o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos.

"Isto não acaba aqui", declarou Carlos Cruz à saída do Estabelecimento Prisional da Carregueira, Sintra, onde era aguardado por familiares e pelo advogado, Ricardo Sá Fernandes.

O antigo apresentador de televisão garantiu que vai "continuar a suscitar todas as entidades nacionais e internacionais", até que reconheçam que está inocente.

“Se o tribunal europeu responder afirmativamente às questões que nós colocámos, e que eles próprios pediram ao Estado português para se pronunciar, é evidente que aí há um caminho aberto para pedir uma revisão do processo” em Portugal, sublinhou.

Carlos Cruz adiantou que “esta é mais uma etapa de uma longa maratona, que agora vai continuar com o tribunal europeu”.

Questionado pelos jornalistas, sobre o facto de o acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa impor que Carlos Cruz procure trabalho, o ex-apresentador reiterou que recebeu alguns convites para "fazer coisas" ligadas à comunicação, mas que é "prematuro" assegurar se vai conseguir ou não arranjar trabalho, observando que é um reformado e não um desempregado.

À saída do Estabelecimento Prisional da Carregueira, o antigo apresentador de televisão reclamou novamente inocência, frisando que está “completamente” preparado para um novo julgamento, uma vez que não tem qualquer dúvida, nem medo.

“Quando se tem razão, quando se está inocente a força é enorme, não há obstáculo não há nada. Eu estive aqui mil e seiscentos e tal dias, e todos os dias eu acordava e adormecia inocente e isso dá-nos uma força que o conceito de tempo deixa de ser um conceito material, para ser um conceito abstrato, e nós vamos vivendo sempre na esperança que a verdade venha ao de cima e um dia virá”, afirmou.

Carlos Cruz disse igualmente que “a opinião pública tem vindo, a pouco e pouco, reconhecer o enorme erro judiciário que foi cometido” em relação ao seu caso.

Sobre as alegadas vítimas da Casa Pia, referiu ainda que não tem curiosidade em saber como estão, realçando que “é um problema da consciência deles”.

“Eles sabem que não me conhecem e que nunca estiveram comigo, que estou inocente. Falar com eles para lhes pergunta o quê?”, disse ainda.

Carlos Cruz, condenado no âmbito do processo Casa Pia, saiu esta quinta-feira em liberdade condicional, do Estabelecimento Prisional da Carregueira, Sintra.

Carlos Cruz, que já completou dois terços da pena de seis anos de prisão a que foi condenado, no âmbito do processo Casa Pia, venceu um recurso apresentado na Relação de Lisboa, contra a decisão do Tribunal de Execução de Penas (TEP), que, em março, recusara o pedido de liberdade condicional.

O antigo apresentador de televisão tem estado a cumprir a pena no Estabelecimento Prisional da Carregueira, no concelho de Sintra, e teve direito a duas saídas precárias, em dezembro de 2015 e no passado mês de março, por altura do seu aniversário.

Família e futebol nas primeiras horas de liberdade condicional 

Carlos Cruz disse esta quinta-feira, à Lusa, que as primeiras horas da liberdade condicional serão passadas com a família e a "torcer" pela França frente à Alemanha, no jogo das meias-finais do Europeu de futebol.

"Vou estar hoje com a família, que é o mais forte que tem, e vou ver o Alemanha-França, com a esperança de que a França ganhe, o que é exatamente o que faria se estivesse dentro da [prisão da] Carregueira. A companhia é que é diferente", disse Carlos Cruz à agência Lusa, após sair em liberdade condicional, hoje, do Estabelecimento Prisional da Carregueira, Sintra.

O antigo apresentador de televisão, de 74 anos, rejubilou-se com a "decisão acertada" do Tribunal da Relação de Lisboa, que lhe concedeu a liberdade condicional e descreveu os primeiros momentos em liberdade: "Estou a aterrar, estava numa câmara de compressão, aterrei e agora tenho de descomprimir, antes de sair da cápsula".

"Sinto-me bem, porque não estou limitado por parede nenhuma. É a liberdade", disse, sublinhando contudo que "a consciência é superior à liberdade".

Quanto ao processo Casa Pia, que o condenou a seis anos de prisão por abusos sexuais de menores, e ao facto de nunca ter admitido a culpa, Carlos Cruz afirmou que "nunca poderia assumir uma coisa que não fez", acrescentando: "Estaria lá dentro até que me obrigassem".

"Não compro a liberdade com uma mentira. A liberdade só se pode construir com a verdade", acentuou.