Os portugueses já não abandonam só os animais nos meses que antecedem as férias de Verão e estes dão entrada nas associações de defesa e nos canis municipais, cada vez em pior estado.

De acordo com responsáveis de associações de defesa dos animais, a prática de abandono dos bichos de estimação passou a ocorrer todos os dias do ano.

«Qualquer pretexto serve» para abandonar um animal de estimação quando este constitui um entrave, refere Ana Pino, uma das responsáveis da Associação Portuguesa de Cães Abandonados (APCA), localizada em Sintra, que todos os dias acolhe animais abandonados ou que lhe são entregues à porta da associação.

«Vou trabalhar para o estrangeiro» ou «vou mudar para uma casa onde o senhorio não permite animais» são apenas «algumas das muitas desculpas» que diariamente tem de escutar.

É uma «situação dramática que já vinha a aumentar e que agora foi agravada pela crise económica», refere o presidente da associação Animal, que ainda nota picos de abandono entre «Junho e Agosto».

Para Miguel Moutinho, muitos donos «já não conseguem suportar as despesas mais básicas, como a alimentação, e optam pelo abandono do animal».

Segundo Ana Pino, quando os donos são confrontados com «grandes despesas veterinárias - que não têm nenhum tipo de comparticipação nem podem ser descontadas no IRS - os cães são simplesmente abandonados porque não há como os tratar», acrescenta.

Há até, muitos que «recusam pagar um cêntimo quando entregam os animais à associação», que para receber um cão pede «uma taxa de 20 a 50 euros», explica.

As estimativas oficiais apontam para dez mil cães abandonados por ano, mas os responsáveis das associações dizem que os números pecam por defeito.

«Parece-me muito pouco, quando a APCA, que é pequena, acolhe cerca de 300 cães por ano e os canis municipais, em média, entre 40 e 50 por semana», refere Ana Pino.

Miguel Moutinho considera a estimativa oficial um «absurdo» e contrapõe: «Se admitirmos que, em média, 500 animais (números conservadores) são abandonados em cada um dos 308 concelhos por ano, já estamos a falar de 150 mil».