São nove e meia da manhã.

Enquanto o Sp. Braga cumpre horários rígidos num luxuso hotel em Alpalhão, ali a dois passos, Pedro Canário entrega-se à cozinha e aos tachos. Dentro de poucas horas vai viver o jogo mais importante da curta carreira de treinador, mas para já a preocupação dele é outra: preparar o almoço para todo o plantel do Gafetense.

No restaurante dos pais, bem no centro histórico de Portalegre, ele trata da massa e a mãe ajuda-o no acompanhamento. É um ritual que se repete em todos os jogos.

O almoço começa às onze e meia: é por volta dessa hora que os jogadores vão chegando. Não dormiram num hotel, dormiram em casa, não estão em estágio, juntam-se para almoçar, não têm o tempo organizado, aproveitam uma hora e meia livre para jogar snooker.

A tradição manda que almocem nas mesas e tomem o café ao balcão. Alguns saem para fumar. «O treinador diz para fazermos tudo normalmente», justificam. «Se não fumasse ficava mais nervoso.»

«Arranja-me aí um cigarro que hoje é um dia especial», atira o não fumador do grupo.



Dali a poucas horas vão estar a entrar alinhados lado a lado com os jogadores do Sp. Braga e aí sim vão estar nervosos: aqueles metros caminhados sob o aplauso de três mil adeptos vão saber-lhes a Liga dos Campeões.

Pedro Canário não consegue parar: o telefone não sossega e ele também não. Há gente que lhe deseja boa sorte e gente que lhe pede bilhetes. Almoça tarde e quase não come nada.

Está ansioso: mas esconde-o bem.

O adjunto José Eduardo Maia tem mais dificuldades em controlar o nervosismo: não consegue parar de roer uma palhinha de plástico. Licenciado em fisioterapia, é treinador adjunto e fisioterapeuta. Prepara a tática com o chefe de equipa, dá o aquecimento e assiste medicamente os jogadores quando se lesionam: como é de futebol puro que se fala, só teve de o fazer uma vez no jogo todo.

«Por que andamos aqui? Pelo gosto do cheiro da relva não pode ser, porque não a temos. Deve ser pelo gosto do pó do pelado», brinca. «É por tudo. Gosto do balneário, da camaradagem e amo o futebol. É uma paixão.»

Uma paixão que custa caro: ele como alguns jogadores admite que é mais difícil ter progressão na carreira quando se faz trinta por uma linha para conseguir estar nos três treinos semanais da equipa. Trocam turnos, pedem folgas, enfim, coisas que chateiam qualquer chefe.

Mas compensa.

É uma da tarde e o tempo não passa para José Eduardo Maia. «Vamos indo?» O adjunto anseia chegar ao campo, vestir o equipamento e começar a trabalhar: libertar toda aquela adrenalina.

«Tem calma, Zé. É uma hora.»

«Vamos de carro...», sugere.

«Eu vou a pé. Preciso de ir a pé.»

Pedro Canário quer caminhar e apanhar ar puro. O estádio não é longe. Vamos a pé: o  tvi24.pt e a equipa técnica. «Zé, foi por esta rua que fomos da outra vez?», questiona.

A «outra vez» foi a final da Taça da Associação de Portalegre: o Gafetense ganhou-a e conquistou o direito de entrar na Taça de Portugal, privilégio que por norma não tem por nunca ter saído dos campeonatos distritais.



O campo em Gáfete é pelado e por isso jogam em Portalegre, onde há um relvado como a Federação exige. Este regresso a Portalegre exige uma ambientação ao terreno e por isso fizeram quatro treinos em vez dos habituais três. O Sp. Braga observou dois deles, tirou notas e mostrou que levava este jogo muito a sério. Para o Gafetense é uma honra.

A meio do caminho há uma paragem obrigatória: uma tasca de esquina. Pedro Canário entra e bebe uma água fria. Mais tarde o  tvi24.pt vem a saber que o treinador cumpriu exatamente os mesmos passos que deu na final da Taça da Associação: também é supersticioso.

Pelo caminho conversa com o adjunto. Falam sobre como vai ser a palestra. «Não vou dar-lhes um discurso de motivação, que motivados já estão eles. Ainda ficam nervosos.»

No balneário as conversas andam à volta do nome dos jogadores nas camisolas: uma estreia no Gafetense. Foi um patrocinador que em troca de publicidade na frente ofereceu um equipamento novo com os nomes nas costas. «Como é o teu? Ah, Aragonez, que classe.»

Pedro Canário pega na palavra e acabam as brincadeiras: é um líder natural. Fala de movimentações táticas, dá conselhos indivuais e comenta o nome de Carlos Xistra. «É um árbitro de Liga, não é como nos distritais», atira. «Nada de gesticular ou protestar.»

A tática é dada com garrafas de água: cada garrafa é um jogador e o chão é o relvado. Quando diz que o lateral tem de defender por dentro, movimenta a garrafa da extremidade mais recuada para o centro. Garante que é preciso defender bem e explorar a velocidade dos extremos, puxando as garrafas da ponta para a frente.



Explica a cada jogador o que pretende.

«Neves, como sabes só ontem decidi que ias ser titular. Todas aquelas coisas que fazes e me chateiam num jogo normal, hoje estás proibido de fazer. Nada de fintas lá atrás e nada de passes interiores, toca curto ou mete na frente», diz ao lateral.

O discurso fez efeito: Neves foi dos melhores em campo. Uma exibição eficaz e sem falhas.

«Pessoal, o Braga vai entrar com tudo, vamos defender bem, ser compactos e solidários uns com os outros. Estamos todos contentes por sermos falados na imprensa, mas não queremos que isto acabe hoje. Queremos ser falados amanhã. Cada minuto que passar é uma vitória.»

Foram quarenta e quatro vitórias: os minutos que passaram até o Sp. Braga abrir o marcador.

«Não temos nada a perder, vamos correr, correr, correr. A festa é vossa, aproveitem-na.»

Há jogadores a acenar que sim com a cabeça em silêncio. A palestra acaba em aplausos e cumprimentos efusivos. É hora mais um cigarro antes de começar o aquecimento.



Filipe Pacau é o mais extrovertido. Bruno Costa, o guarda-redes suplente, tem um humor natural, mas o avançado é o mais divertido.

«Você já me entrevistou.»

Já?

«Quando o Campomaiorense foi campeão distrital você fez uma reportagem sobre o clube e ligou-me para me entrevistar. Ainda tenho lá a reportagem guardada.»

É verdade.

«Escreva aí, nós é que vamos despedir o Jesualdo. Hoje nem o Salvador lhes vale.»

No meio desta conversa chega a comitiva do Sp. Braga. O autocarro de luxo para à porta do balneário e os jogadores quase não se mostram: rostos fechado, música nos ouvidos e olhar sério.

Uma equipa profissional em estágio.

Nessa altura ergue-se um muro a separar as duas realidades. Pedro Canário desceu as ruas de Portalegre a pé, entre brincadeiras e palmadas nas costas.

Os atletas do Gafetense, esses, aproveitam para admirar: as sapatilhas e os fatos de treino. «Quanto custam umas calças daquelas?», perguntam.

O jogo corre saudável. A diferença de qualidade dos jogadores é gigantesca e nota-se em pormenores como a velocidade, a potência, a força de remate, a receção de bola orientada. É enfim a diferença normal entre uma equipa europeia e uma distrital de Portalegre.



O Gafetense bate-se bem, porém, e deixa tudo em campo. A derrota por 2-0 é uma vitória. «Tinha dito que até 3-0 era vitória, 4-0 era empate e a partir de 5-0 era derrota», diz um jogador.

Pedro Canário estava feliz. Queria dar nas vistas e deu. Queria mostrar uma equipa organizada e foi precisamente essa palavra que Jesualdo utilizou para o elogiar. «Parabéns ao Gafetense que mostrou ser uma equipa organizada e bem trabalhada», referiu o treinador do Sp. Braga.

«Jesualdo é um dos treinadores que mais admiro, sigo-o desde o Estoril e E. Amadora e foi um privilégio para mim. Estou muito feliz», devolve.

Filipe Pacau, esse, estava cheio de dores. Coxeava e queixava-se das costas. Tinha tido a melhor ocasião de golo do Gafetense, ainda com 0-0, mas o guarda-redes não lhe permitiu marcar. «É impossível. O Cristiano, com 1,90 metros, rapídissimo, quanto toquei de primeira já estava em cima de mim. É impressionante.»
 
Ao lado o guarda-redes Paulo Martins parecia outro: fechado e tenso antes do jogo, tinha agora um brilho nos olhos. «Estava nervoso», confessou. «Um avançado cometer um erro é uma coisa, um guarda-redes cometer um erro é outra. Correu bem.» 

Correu muito bem.

Na velha carrinha do clube distribuem-se sandes e sumos de laranja. Há sorrisos, piadas e cansaço: um cansaço bom.

O tempo é de preparar outras festas: neste caso um jantar oferecido por um restaurante da vila de Gáfete antes do regresso ao trabalho de todos os dias, ao futebol distrital e ao pó do pelado.

«Você vem jantar connosco...», atira Paulo Martins, o guarda-redes.

Não, a festa agora é vossa. Obrigado por tudo.