O Presidente da República defende que a decisão sobre um eventual programa cautelar deve ser tomada «no momento adequado», «evitando alaridos precipitados», e tendo em conta a evolução dos mercados, da situação internacional e o sentimento dos parceiros europeus.

«Agora, há que, evitando alaridos precipitados, acompanhar cuidadosamente a evolução dos mercados e da situação económica e financeira internacional e perscrutar o sentimento dos nossos parceiros europeus para, no momento adequado, tomar a melhor decisão quanto ao caminho a seguir: uma saída à irlandesa ou um programa cautelar», afirma o chefe de Estado, Aníbal Cavaco Silva, no prefácio do «Roteiros VIII», que tem como tema o pós-troika.

Num capítulo dedicado ao «regresso ao mercado da dívida pública», o Presidente da República fala precisamente sobre um dos temas que tem ocupado parte da agenda política das últimas semanas, sublinhando que «em termos gerais, para um país que conclua com sucesso um programa de assistência financeira, é possível que um programa cautelar seja preferível a uma saída dita à irlandesa».

«Ficando inteiramente à mercê da volatilidade e das contingências típicas dos mercados, um país pode incorrer em custos de regressão elevados, sobretudo se as principais forças políticas não revelarem uma firme convicção no sentido de garantir, de forma concertada e a médio prazo, uma trajetória de sustentabilidade das finanças públicas e a prossecução de uma política de reformas para a melhoria da competitividade das empresas", sustenta o Presidente da República no terceiro capítulo do prefácio, que é publicado na íntegra na edição de hoje do semanário «Expresso», que divulga ainda o segundo e quarto capítulos do texto inicial do «Roteiros VIII», que reúne as intervenções do Presidente da República ao longo do oitavo ano do seu mandato.

Reconhecendo que o acesso aos mercados de financiamento externo dependerá do grau de confiança dos investidores da capacidade do país reembolsar, no médio e no longo prazo, os empréstimos contraídos, Cavaco Silva adverte que uma multiplicidade de fatores irá influenciar o risco atribuído à dívida pública portuguesa, como o crescimento potencial da economia, o saldo da balança externa, o cumprimento das regras europeias de disciplina orçamental, a solidez do sistema financeiro, as perspetivas de estabilidade política e o grau de consenso entre as forças partidárias do arco da governabilidade quanto às orientações fundamentais da política económica.

Por outro lado, acrescenta o Presidente da República, é provável que os mercados prestem particular atenção às avaliações da troika, das instituições internacionais, do Eurogrupo e de alguns parceiros da Zona Euro, bem como à evolução da notação atribuída à dívida soberana portuguesa pelas agências de rating.

Renovando os apelos à serenidade e ao rigor no debate sobre o caminho a seguir, o chefe de Estado frisa que «o que está em aberto é demasiado importante e duradouro para que possa ser usado como arma de arremesso nas querelas político-partidárias».

Quanto à hipótese de um segundo resgate, Cavaco Silva rejeita liminarmente essa possibilidade, notando que esse cenário, que seria «bastante negativo, quer para Portugal, quer para a União Europeia», está desde o início do ano «completamente excluído», como cita a Lusa.