O Presidente da República alertou os partidos para a necessidade de existir um «esforço coletivo» relativamente aos «grandes desígnios nacionais». Sem usar a palavra «consenso», que fez parte da sua intervenção no ano passado, Cavaco Silva pediu uma «reflexão serena, mas urgente» sobre o estado da política que leva tantos portugueses a afastarem-se dela.

O Presidente da República recusou «a política de vistas curtas» ditada pelos taticismos, insistindo na necessidade de entendimentos políticos sobre as questões essenciais para o futuro do país.

«É tempo de abandonarmos a política de vistas curtas, ditada pelo taticismo e pelos interesses de ocasião. Precisamos de um discurso de esperança que mobilize os portugueses para os desafios que temos à nossa frente. Precisamos de professores motivados, investigadores empenhados, servidores do Estado valorizados, agentes culturais criativos, jovens empreendedores, uma comunidade de empresários e trabalhadores com espírito vencedor», afirmou o chefe de Estado.

Cavaco Silva discursava na sessão solene de comemoração do 25 de Abril, que decorreu nesta manhã, na Assembleia da República.

Tendo em conta as sondagens de opinião, «os partidos devem fazer uma reflexão serena , mas urgente, sobre sobre as causas dessa insatisfação. (...) Tem-se agravado a tendência para se privilegiar o acessório e o efémero em detrimento do essencial. Os partidos têm de perceber, de forma inequívoca, mais cedo ou mais tarde, a insatisfação com o sistema político e o desinteresse dos cidadãos acabarão por afetar a própria atividade partidária».

Para Cavaco Silva, a «democracia não corre perigo, mas 40 anos depois do 25 de Abril é tempo dos partidos repensarem o sentido da sua ação e assumirem a responsabilidade que lhes cabe no futuro de Portugal». Um dos momentos aplaudidos nesta sessão solene.

«Temos de tomar uma opção decisiva. Ou persistimos numa visão de curto prazo, olhando para aquilo que nos divide, ou pensamos Portugal numa perspectiva de futuro, partindo daquilo que nos une. O nosso combate não deve ser menor do que aquele que fizeram o 25 de Abril».

«Consolidada a democracia, este é o tempo de lutar por um país mais desenvolvido e mais justo. Portugal só será um país mais justo se for mais desenvolvido. E Portugal só será um país mais desenvolvido, se existir um esforço coletivo para alcançar um compromisso de futuro quanto aos grandes desígnios nacionais».

O discurso de Cavaco Silva também chamou a atenção para os media, pular essencial da democracia. «Os meios de Comunicação Social têm um papel decisivo a desempenhar e devem estar consicentes da responsabilidade que exercem». «A Comunicação Social deve informar e esclarecer os cidadãos com objetividade e com rigor, dando espaço ao confronto de opiniões livres, mas fundamentada. No dia em que a verdade e o rigor da informação forem totalmente sacrificados a favor do impacto sensacionalista, estaremos a criar novas formas de ditadura», sublinhou.

Numa intervenção com cerca de oito páginas, com a primeira parte dedicada às conquistas de Abril, Cavaco Silva recusou também que o dia 25 de Abril tenha «proprietários» .

«Sem prejuízo da natural diversidade de opiniões e do confronto de ideias que é próprio de uma democracia, os desafios que Portugal enfrenta atualmente são de uma tal dimensão que não se compadecem com uma prática política que faz prevalecer a crispação e o conflito», vincou, reiterando que perante a dimensão dos desafios que se colocam a Portugal inteiro - e não apenas a um partido ou Governo em concreto - é preciso tomar «uma opção decisiva».