O primeiro-ministro, António Costa, reiterou este sábado à noite desconhecer o relatório noticiado pelo Expresso sobre o furto de armas em Tancos, sublinhando que o documento não pertence a "nenhum organismo oficial" do Estado.

Não sei a que documento se refere o jornal. Sei que não é de nenhum organismo oficial do Estado português", disse António Costa, em declarações à RTP em Almancil, no concelho de Loulé, à margem de uma iniciativa de apoio aos candidatos locais nas autárquicas de outubro.

António Costa sublinhou que o Estado-Maior-General das Forças Armadas já "desmentiu a autenticidade desse documento", tal como o secretário-geral dos Serviços de Informações.

Para o líder do executivo do PS, sai fragilizada a "credibilidade da informação" e dos que "comentam notícias sem verificar a veracidade dos documentos", aludindo ao presidente do PSD, Pedro Passos Coelho.

"Acho absolutamente lamentável que [Passos Coelho] tenha feito comentários com base numa notícia sem primeiro sequer confirmar se esse documento era autêntico", sublinhou António Costa.

E concretizou: "Receio muito que estejamos a falar sobre algo fabricado e não sobre um documento autêntico. Um documento autêntico já sabemos que não é".

António Costa, líder do PS e primeiro-ministro, falou durante breves minutos em direto para a RTP no arranque de um jantar-comício em Almancil que junta centenas de militantes socialistas do Algarve.

O chefe do Governo já tinha dito, este sábado, desconhecer "em absoluto" um relatório das secretas.

Obviamente que não vou tratar assuntos desta relevância no meio de uma campanha eleitoral. A única coisa que queria dizer é que desconheço em absoluto esse relatório", vincou Costa, falando em Lagos numa ação de campanha para as autárquicas de 1 de outubro.

O semanário Expresso divulga este sábado um relatório dos serviços de informações militares que avança para cenários "muito prováveis" de roubo de armamento em Tancos, a 29 de junho, e deixa duras críticas à atuação do ministro da Defesa Nacional, Azeredo Lopes.

No entanto, o porta-voz das Forças Armadas desmentiu entretanto a existência de tal relatório. "Vem o Estado-Maior-General das Forças Armadas (EMGFA) informar que o seu Centro de Informações e Segurança Militar (CISMIL) não produziu qualquer relatório sobre o assunto", diz, em comunicado.

Em reação, o Expresso colocou na sua página da Internet um esclarecimento no qual reafirmou “que em momento algum atribui ou atribuiu o documento a que teve acesso ao Centro de Informações e Segurança Militar (CISMIL), mas sim a serviços de informações militares”.

O semanário reiterou que “o documento existe e é verdadeiro” e que “foi elaborado, tal como se escreveu, para conhecimento da Unidade Nacional de Contra Terrorismo (UNCT) da Polícia Judiciária e do Serviço de Informações de Segurança (SIS)”.

“O documento, cuja credibilidade foi confirmada pelo Expresso junto de várias fontes, contém informação de cariz militar e também ao nível da segurança interna”, refere o semanário.

Segundo o semanário, o "tráfico de armas para África, em concreto Guiné-Bissau ou Cabo Verde, ou um assalto promovido por mercenários portugueses contratados, ou ainda por grupos jihadistas" são os três cenários apontados no relatório, enviado à Unidade Nacional de Contraterroristas da Polícia Judiciária e aos Serviços de Informação e Segurança (SIS).

Também em comunicado, o secretário-geral do Sistema de Informações da República (SIRP), Júlio Pereira, esclareceu que “tal documento não é oriundo nem do Serviço de Informações de Segurança (SIS) nem do Serviço de Informações Estratégicas de Defesa (SIED)”.

O documento divulgado pelo Expresso indica que Azeredo Lopes atuou com grande "ligeireza, quase imprudente", sendo-lhe apontadas "declarações arriscadas e de intenções duvidosas" e uma "atitude de arrogância cínica" na condução de todo o processo. Também o general Rovisco Duarte, Chefe do Estado-Maior do Exército, apesar de ter assumido a responsabilidade, "não terá tirado consequências".

Na terça-feira, ouvido num debate de atualidade na Assembleia da República sobre o caso do material militar de Tancos, o ministro da Defesa revelou que foram abertos três processos disciplinares no Exército e que no dia 14 começou o esvaziamento dos paióis, com a colaboração da Polícia de Segurança Pública (PSP) e da Guarda Nacional Republicana (GNR).

Azeredo Lopes sustentou que o Governo "fez o que devia ser feito e num tempo muito curto", sem responder a perguntas dos deputados para que esclarecesse a afirmação, feita em entrevista ao Diário de Notícias e à TSF, de que, "no limite, pode não ter havido furto nenhum" em Tancos, aludindo à ausência de provas.

Face às perguntas dos deputados do PSD e do CDS-PP sobre "o que se sabe e o que não se sabe" relativamente ao "furto de material militar" em Tancos, o ministro insistiu que "são do domínio da autoridade judiciária competente", salientando que "o inquérito se encontra em segredo de justiça".

O que diz Marcelo

O Presidente da República insistiu hoje que é necessário esclarecer o que se passou com o furto de armas em Tancos, nomeadamente “se houve ou não atuação criminal, em que é que se traduziu e quem são os responsáveis”.

O que digo sobre esse caso é sempre o mesmo: os portugueses esperam e o Presidente da República espera que haja o apuramento de uma realidade que é muito importante. Naturalmente que segue uma investigação própria, mas há de chegar um dia em que teremos de apurar efetivamente o que existiu naquilo que aparentemente se configura como uma atuação potencialmente violadora de regras fundamentais do direito português. Vamos ver se se prova”, afirmou Marcelo Rebelo de Sousa, à margem da Festa do Outono no Parque de Serralves, no Porto.

Notícias pelo jornal

Se António Costa falou em desconhecimento, o líder da oposição assumiu a existência do documento. Na sequência desta notícia, o líder do PSD acusou o Governo de "tiques de autoritarismo" por ocultar ao parlamento informações sobre o furto de material de guerra em Tancos e questionou se o Presidente da República está a par do relatório hoje divulgado.

Não sei se o senhor Presidente da República está a par do que se passa, mas o parlamento não sabe de nada, temos de comprar o Expresso ao sábado para saber o que se passa com o Orçamento, para saber o que passa com os paióis militares, para termos as notícias que o Governo tem a obrigação de prestar ao parlamento?", questionou Passos Coelho, à margem de um almoço de apoio ao candidato do partido à Câmara Municipal de Marco de Canaveses.

O presidente do PSD lembrou que também já pediu publicamente ao Governo a divulgação do relatório do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras sobre a alteração à lei da imigração, até agora sem resposta.

"Viram-no? Eu ainda não vi. Este Governo tem tiques de autoritarismo, é este o nome que temos de dar a estes comportamentos", acusou, defendendo que o executivo tem de prestar informação ao parlamento sobre matérias graves como as que citou.

Para Passos, "o Governo, a começar no primeiro-ministro e a acabar nos ministros, ocultam informação que têm e pelos vistos ainda dão ralhetes" a deputados no parlamento, referindo-se a uma parte da notícia do Expresso, segundo a qual António Costa teria admoestado os deputados socialistas da Comissão de Defesa por não terem defendido o ministro Azeredo Lopes.

A este propósito, Passos Coelho lamentou que os partidos que apoiam o Governo "se ouçam tão fininho".

Numa coisa grave para a segurança do país, da Europa, o ministro ou desconversa ou não diz nada", criticou, ainda.

A aguardar esclarecimentos

A coordenadora do BE, Catarina Martins, afirmou hoje que continua "a aguardar esclarecimentos cabais do Governo" sobre o furto de armas em Tancos, mas escusou-se a comentar o relatório dos serviços informações militares sobre o caso.

Como compreende eu não posso comentar um relatório que não conheço. O relatório é secreto, é dos serviços de informações, há notícias sobre o relatório, mas nós não conhecemos o relatório. Sobre essa matéria não posso dizer absolutamente nada", respondeu Catarina Martins aos jornalistas durante uma ação de campanha autárquica em Amarante, distrito do Porto.

O BE continua, de acordo com a líder, insiste que "todas as consequências devem ser retiradas", até porque "ainda está muito por esclarecer".

Não esteve à altura

A presidente do CDS-PP, Assunção Cristas, disse hoje que o ministro da Defesa “não esteve à altura das suas responsabilidades” e “do cargo que desempenha” no caso do desaparecimento de armas de guerra em Tancos.

Este relatório vem confirmar aquilo que foi sempre a preocupação e a linha do CDS, quando afirmou que o ministro da Defesa não esteve à altura do seu lugar e das suas responsabilidades”, afirmou aos jornalistas Assunção Cristas, adiantando que o partido “não mudou de opinião” quanto à demissão de Azeredo Lopes, que “naturalmente tem de ser responsabilizado por esta situação”.

Para a presidente do CDS-PP, que falava durante uma ação de campanha para a Câmara de Lisboa, este episódio “é muito grave”, foi “profundamente desvalorizado” e precisa de um apuramento das responsabilidades a todos os níveis, nomeadamente ao nível político.

Este relatório parece confirmar que este caso foi tratado com uma imensa ligeireza, com uma grande falta de responsabilidade e com uma grande incapacidade de reação ao nível que seria exigível e desejável para um estado de direito que é Portugal.”