Agentes judiciários reconheceram esta terça-feira, no Parlamento, que a morte do proprietário do avião da campanha presidencial de Soares Carneiro (1980), que deveria ter testemunhado dias depois na I comissão parlamentar sobre o sinistro, foi inicialmente ligada àquela investigação policial.

Contudo, os diversos elementos da Polícia Judiciária (PJ) ouvidos na X Comissão de Inquérito da Assembleia da República sobre as mortes em Camarate do então primeiro-ministro Sá Carneiro (PSD) e do seu ministro da Defesa, Amaro da Costa (CDS), e comitiva, com muitas falhas de memória justificadas pelo passar dos anos, defenderam que a tese de eventual homicídio foi rapidamente posta de parte pelas autoridades.

Em causa esteve a morte de José Moreira e sua acompanhante, Elisabete, encontrados sem vida num apartamento em Carnaxide, em janeiro de 1983, presumivelmente vítimas de inalação de monóxido de carbono. Este engenheiro era proprietário de várias aeronaves, uma das quais utilizada na «corrida a Belém» pelo candidato da Aliança Democrática (PPD/PSD-CDS), e anunciara ir revelar informações importantes aquando da sua audição parlamentar, dias antes de morrer.

Segundo o então inspetor-coordenador da secção de homicídios da PJ Eduardo Dias da Costa, os corpos foram encontrados por amigos ou familiares e pela porteira do prédio, seguindo-se a presença da Guarda Nacional Republicana (GNR), do Ministério Público, do delegado de saúde e, só horas mais tarde, através do piquete, a Polícia Judiciária teve conhecimento do sucedido.

Porém, em virtude de notícias da Comunicação Social, terá sido decidido "por um diretor-adjunto" a deslocação ao apartamento de agentes da Direção Central de Combate ao Banditismo (DGCC), ao invés da opção natural por uma das três brigadas das duas secções de homicídios da PJ.

«Tivesse havido algum indício de crime e os corpos não teriam saído de lá para o Instituto de Medicina Legal (IML) sem a PJ ser chamada», garantiu Dias da Costa. O responsável justificou o sucedido em virtude dos corpos revelarem «cor carmim», o «grau de humidade da casa, completamente fechada, o recurso a aquecedores», o facto de as vítimas terem «cozinhado e tomado banho», além do «esforço físico», pois tiveram «relações sexuais».

Sobre um relatório posterior, elaborado pelo Instituto Ricardo Jorge, que indicava que os níveis de gases libertados pelas tubagens serem insuficientes para justificar as mortes, o inspetor aposentado assegurou que «continuava a ser determinante a autópsia que justificava a hemorragia nasal pela congestão pulmonar, determinada pela intoxicação de monóxido de carbono».

O inspetor-chefe da PJ Mário Jorge Coimbra Mendes, um dos dois agentes da DCCB que foram ao local, já na madrugada de 06 de janeiro de 1983, e afirmou nada ter visto de «sinais de violência, alguma coisa de estranho, para lá da cozinha com cheiro a gás» e a consequente «suspeita de problema acidental», repetindo não se lembrar de vários factos e de não ter seguido os trâmites seguintes.

No entanto, confrontado pelo deputado do PSD Pedro do Ó Ramos, com um inquérito de 1991 da Procuradoria-Geral da República (PGR) precisamente sobre a atuação da PJ naquela investigação, foi levado a admitir que os corpos já teriam sido removidos aquando da visita, depois de atestar que tinha visto as vítimas no chão, mas «sem qualquer toalha ensanguentada ou vestígios de sangue», como sugerira o antigo cartoonista Augusto Cid, um dos representantes dos familiares das vítimas da tragédia de Camarate.

Cid afirmou ter tido acesso a fotografias com aquelas provas através de um sobrinho de José Moreira.

Antes, também o então inspetor Herculano Lourenço Morgado, que ficara agente titular do processo na secção de homicídios, repetiu bastas vezes não ter "conhecimento" de diversas informações constantes do relatório da PGR, no qual foi ouvido, inclusivamente as conclusões dos exames histológicos (biopsia), que apontavam para «rebentamento dos alvéolos pulmonares», algo «só possível por asfixia, afogamento ou inalação de gases forçada», segundo Pedro do Ó Ramos.

«Não me recordo, disso não tinha conhecimento. Não me lembro absolutamente nada de pulmões rebentados. Nunca fui ouvido nesse inquérito ou processo», afirmou, enquanto o parlamentar social-democrata lia que o referido documento lhe fora «entregue em mão», segundo a PGR, de acordo com o relato da Lusa.

Os trabalhos da X Comissão Parlamentar de Inquérito à Tragédia de Camarate, presididos pelo deputado social-democrata José Matos Rosa e suspensos desde dezembro de 2013, foram hoje retomados e as suas conclusões estão previstas para o final do mês.

O inquérito visa apurar as «causas e circunstâncias em que, no dia 04 de dezembro de 1980, ocorreu a morte do primeiro-ministro, Francisco Sá Carneiro, do ministro da Defesa Nacional, Adelino Amaro da Costa, e dos seus acompanhantes».