Música poderá haver, mas falta mesmo saber quem será o novo maestro no PSD. Praticamente garantido é que muita laranja vai ser espremida até às eleições marcadas para 13 de janeiro. Porque um líder instantâneo - à semelhança do refresco Tang que fazia as delícias na década de 70 do século passado, quando o partido foi criado, dias depois do 25 de Abril de 1974 - é uma solução que já está afastada.

Para todos os efeitos, o baile está armado. De um lado, Rui Rio, criado no Porto, com rótulo de calculista, rigoroso, poupado - ou unhas de fome, para os que "não vão com ele à bola" - , do outro lado, Santana Lopes, alfacinha, tido como destemido, jogador, puro "animal político", "enfant terrible" do partido, despesista - dos que não olham a custos e menos ainda à fatura, no dizer dos que gostam de carregar na nota.

Rui Rio tem 60 anos. Santana Lopes tem 61. São, portanto, da mesma geração e conseguiram a sua maior vitória eleitoral precisamente no mesmo dia: 16 de dezembro de 2001, uma fatídica data autárquica para o PS que governava o país e que levou o então primeiro-ministro António Guterres a abandonar o Executivo. Para evitar o que chamou de "pântano político".

Nessa noite, contra tudo e contra todos os prognósticos, Rui Rio, no Porto, e Santana Lopes, em Lisboa, tornaram-se presidentes das Câmaras. Destronando dois instalados presidentes socialistas: respetivamente, Fernando Gomes - que retornava e se recandidatava após uma episódica passagem pelo Governo - e João Soares.

Depois, com Durão Barroso no poder, no país e no partido, Santana Lopes e Rui Rio, por esta ordem, tornaram-se seus vice-presidentes. Logo, em julho de 2002, no 24.º congresso, no Coliseu de Lisboa.

Mais tarde, o líder Barroso partiu para Bruxelas e deixou o governo. Do país e do partido. Em ambos os postos, sucedeu-lhe Santana Lopes, que contaria com Rio como primeiro vice-presidente, eleito no 26.º congresso, em Barcelos.

Em resumo, aqui ficou o que, a seu tempo, os uniu. Sobra e sobejará o que os separa. Seguramente e ainda mais, nos tempos que aí vêm, num duelo anunciado e até desejado por muitos. Mesmo que figuras gradas da área social-democrata considerem que o processo de sucessão nos moldes que se estão a desenhar, em nada contribuirá para revitalizar o PSD. Casos de Manuela Ferreira Leite, José Pacheco Pereira, José Miguel Júdice.

"Nunca fiz nada para chegar a um determinado cargo"

Parecerá mentira, mas assim se definia Rui Rio, em 2009, numa entrevista ao Jornal de Negócios. Preparava já uma terceira e última candidatura à câmara do Porto, que voltaria a ganhar, e dizia descartar ser líder do PSD ou primeiro-ministro de Portugal.

Vai dizer-me que não está à espera da sua hora para ser líder do PSD, deixar a Câmara do Porto e ser Primeiro-Ministro?

- Não, não."

Então, como é frequente, até suposto e politicamente correto, Rio reafirmava que corria apenas para câmara municipal. Onde desaguara oito anos antes, rumando contra os poderes instalados na cidade, fossem portistas - como Pinto da Costa, com quem foi coexistindo de costas voltadas - ou portuenses, socialistas ou social-democratas, neste último capítulo, com destaque para quem liderava a distrital do seu partido, o autarca de Gaia, Luís Filipe Menezes.

Uma vez que ganhei, iniciei uma tarefa e é para a concluir", afirmava o tri-candidato, numa entrevista na qual revelava alguns pormenores pitorescos sobre a sua vida, incluindo a relação extremamente cuidadosa com o seu próprio dinheiro.

Passado o tempo dos estudos no Colégio Alemão, mas sobretudo após a faculdade de Economia, Rui Rio reconhece ter "algum cuidado com os gastos" no dia-a-dia, achando que "todos os meses, tirando situações excepcionais, tenho de ganhar mais do que aquilo que gasto". Dizia-o em 2009, na entrevista em que assumia também ler poucos romances e não gostar propriamente de viajar.

Mais tarde, em 2015, na sua biografia "De corpo inteiro", que iria marcar uma vontade pouco inconfessável de se candidatar à Presidência da República - que "podia ser mais estimulante do que outros cargos politicos", como admitiu a um programa televisivo - surgiram velhos episódios do jovem Rui. Que cobrava aos amigos pelas boleias que lhe dava.

É o primeiro de entre os seus amigos a ter automóvel aos 18 anos, o célebre "MR-42-20" - um Fiat 600. Até aqui a sua racionalidade e método se fizeram notar: elaborou um estudo aprofundado sobre todos os custos directos e indirectos por quilómetro, que facturava aos amigos em viagem. "Obviamente que não quero ganhar dinheiro convosco, mas também não tenho possibilidades de o perder", dizia", refere o livro, escrito pelo também economista Mário Jorge Carvalho.

Pela biografia - ou "apologia", como há quem lhe prefira chamar - fica-se a conhecer a sua paixão por automóveis - foi quem, sendo presidente da Câmara do Porto, reabilitou as corridas no Circuito da Boavista -, por outros desportos - tendo sido praticante de várias modalidades, federado em Atletismo, e até fundador de um clube, o Sport Sucesso  além de adepto do Boavista - e ainda baterista de um grupo pop de garagem que se dava a conhecer pelo nome de "Êxtase".

Licenciado, Rio começou por trabalhar na indústria têxtil, depois no setor bancário. No PSD, desde a década de 70, em 1991 rumou a Lisboa, ao Parlamento, onde o "perdão fiscal" aos clubes de futebol por conta das verbas do Totobola - o chamado "Totonegócio" - mereceu a sua oposição.

O dinheiro seria também o fio condutor da sua postura dentro do partido. Secretário-geral do PSD em 1996, quando Marcelo Rebelo de Sousa se tornou presidente, Rui Rio acabou com os pagamentos de quotas em dinheiro. Para evitar caciquismos locais e distritais, em que as dívidas dos militantes eram saldadas em vésperas de eleições por quem tinha interesses no sufrágio.

Os poderes instalados nos aparelhos distritais reagiram. Não gostaram. Rio abandonou o barco. Voltou à tona em 2001, como candidato vencedor à câmara do Porto, ano em que foi pai da sua única filha. De quem chegou a colocar uma foto da ecografia no site da campanha.

Com a inesperada conquista da Câmara, Rio voltou à direção do partido. Foi vice-presidente de Durão Barroso e Santana Lopes, entre 2002 e 2005, e regressou ao cargo com Manuela Ferreira Leite, em 2008.

Doze anos de autarca depois, falhada ou adiada a intenção de uma candidatura à Presidência da República, começou a perfilar-se como pretendente à sucessão de Passos Coelho, cujas políticas quando foi primeiro-ministro foram merecendo reparos frequentes de Rui Rio. Algo que lhe mereceu já uma primeira ferroada do agora opositor, Santana Lopes.

Conferências, debates e contatos com o PSD real e profundo do país valeram-lhe apoios pré-anunciados - por exemplo, das distritais da Guarda, Portalegre e Vila Real - à candidatura que apresenta esta quinta-feira em Aveiro. Ao que se sabe, sem direito a perguntas. O que só lhe cimenta a fama de que não gosta de jornalistas por aí além.

De agora em diante, haverá que acompanhar o que fará o candidato Rui Rio para conquistar os votos dos social-democratas. Sobretudo, por quem, recuperando as suas palavras na entrevista de 2009, assegurava pouco ou nada fazer para alcançar cargos na política.

Tenho convicções, sinto-me bem a lutar por elas. Para ser consequente a lutar por elas, tenho de ter poder. Quando diz que me deixo seduzir pelo poder, aceito até certo ponto. Mas dizer que luto especificamente por aquele cargo, não. O que é que fiz para ser secretário-geral do PSD? Nada. O que é que fiz para ser presidente da Câmara do Porto? Nada. O que é que fiz para ser vice-presidente do PSD, que já fui três vezes? Nada. Não fiz nada."

Rui Rio em campanha (2009)

"Não vou estar por aqui, mas vou andar por aí"

Se a frase era promessa, Santana Lopes sempre a cumpriu. Mais ou menos presente nas lides partidárias, após a derrota nas legislativas de 2005, frente a Sócrates, voltaria à ribalta para tentar reconquistar a Câmara de Lisboa, quatro anos depois. Enfrentou e perdeu para António Costa. Precisamente, o primeiro.ministro que agora promete desalojar de S. Bento, caso volte a liderar o PPD/PSD. Como sempre diz e insiste.

As autárquicas de 2009 em Lisboa foram a sua última batalha eleitoral. Por menos de 15 mil votos, num sufrágio em que a CDU só elegeu um vereador na capital, com 22.623 votos. Menos quase 15 mil dos que obteve para as Assembleias de Freguesia. Conclusão: a ideia de que o voto útil comunista derrotou Santana Lopes ficou a pairar.

Voltar em 2017 à corrida em Lisboa não o seduziu, nem desassossegou, de forma a retirá-lo da cadeira dourada de provedor da Santa Casa da Misericórdia, apesar da candidata Teresa Leal Coelho o ter apontado como tendo sido a primeira escolha do PSD para a capital. Num lançamento de campanha que, dada a gaffe, ficou para o anedotário da política.

Santana recusou mesmo ser mandatário da candidata social-democrata em Lisboa. E há menos de um ano, até se mostrava "muito mais a andar por aí", do que a "estar por aqui".

- Que ambições políticas tem?
- Neste momento, nenhumas"
, dizia em entrevista ao semanário Expresso, sem deixar, contudo, de acrescentar uma máxima do mais conhecido estadista britânicos do século passado: "A vida já me ensinou aquilo que dizia o Churchill: na política pode-se morrer muitas vezes. Isso não importa".

À moda de James Bond, o agora candidato à presidência do PPD/PSD, bem que ressalvava na referida entrevista, sobre um hipotético regresso, um cauteloso "nunca digas nunca!".

Já sei o suficiente da vida para não dizer que isso nunca acontecerá de certeza”, são as palavras do lisboeta que, em 1976, aderiu de alma e coração ao partido fundado por Francisco Sá Carneiro, de quem se regozija ter sido adjunto.

Licenciado em Direito, nascido e crescido em Lisboa - se bem que, não no eixo da média-alta burguesia das Avenidas Novas, o que lhe terá valido alguma desconfiança por parte dessa nata, segundo considera quem bem o conhece -, Santana Lopes foi intermeando a política com a comunicação social - chegando a fundar o grupo PEI, proprietário do jornal O Liberal, da Rádio Geste e da primeira revista Sábado - com a advocacia e até com o Sporting, do qual se tornou presidente em 1995.

Pelo meio, colada à sua imagem ficou-lhe a fama de mulherengo. Na realidade, é pai de cinco filhos, que diz ter ouvido antes de voltar a tentar agora ser presidente do PPD/PSD. Volta a ser candidato, mais do que 20 anos depois da primeira tentativa, em 1995, no célebre congresso de sucessão da Cavaco Silva, em Lisboa. Venceu o então ministro da Defesa, Fernando Nogueira, com mais 33 votos que o colega de Governo, Durão Barroso.

Aí, no Coliseu dos Recreios, Santana Lopes acabou por desistir de ir a votos, numa altura em que o congresso era o palco da eleição, algo que continua a defender, agora que, pela segunda vez, terá de enfrentar o sufrágio direto dentro do partido. Para a história desse conclave, ficou a nota de uma dos maiores tiros no pé na política portuguesa, quando Luís Filipe Menezes acusou o candidato Durão Barroso de representar um eixo "sulista, elitista e liberal". Ouviu uma vaia de fugir. E saiu dali.

Santana Lopes voltou à liça. Desafiou Marcelo Rebelo de Sousa, em 1996, no 18.º congresso, em Santa Maria da Feira. Perdeu, mas estreou-se mais tarde como autarca a vencer, na Figueira da Foz, em 1997, com maioria absoluta e mais de 50% dos votos.

Enfrentando Durão Barroso, em 2000, voltou a perder no congresso. Mas dois anos depois, tornou-se vice-presidente do antigo colega da Faculdade de Direito, que ajudara a convencer alistar-se no PPD/PSD. Em 2004, sucedeu-lhe no Governo - por pouco tempo, já que o Presidente Jorge Sampaio dissolveu o Parlamento - e no partido, até depois da derrota nas legislativas de 2005.

A última vez que Santana Lopes tentou ganhar o PPD/PSD já se submeteu a eleições diretas. Perdeu para Manuela Ferreira Leite, em 2008, ficando até atrás do jovem fruto da JSD, Pedro Passos Coelho. Agora, volta a chegar-se à frente, justificando que tem “o dever de avançar”. Mesmo que a atual forma eleitoral não lhe agrade.

Acho que está na altura de o partido pensar em voltar a ter os grandes congressos do PPP/PSD e de o presidente do partido voltar a ser escolhido em congresso”, foram palavras suas, em setembro, em plena campanha autárquica em Esposende.

Pedro Santana Lopes até assumiu ter sido “um dos grandes responsáveis” pela introdução de eleições diretas no partido. Mas acha que, até o seu PPD/PSD, pode estar "demasiadamente dominado por um certo tipo de aparelho partidário que procura fazer vingar, acima de tudo, não ideias nem princípios nem valores, mas o poder de cada um, a lógica de votos arranjados à pressa ou de qualquer maneira”.

Goste ou não, irá enfrentar eleições diretas no próximo dia 13 de janeiro. Sem o trunfo que lhe é normalmente reconhecido de ser um orador inflamado e arrebatador nos palcos dos congressos.

Santana Lopes é, sem o menor favor, uma das figuras mais interessantes da política portuguesa, nas últimas décadas", diz dele o insuspeito embaixador Francisco Seixas da Costa - que até foi secretário de Estado nos Governos do socialista António Guterres - numa recente publicação no seu blog "Duas ou três coisas".

Análise à parte, ao longo das últimas décadas, Santana surge sempre como pólo de amores e ódios. Até Cavaco Silva, que lhe deu o primeiro cargo governativo como secretário de Estado da Presidência, em 1986, não o poupou quando ele ou fugazmente a primeiro-ministro.

Acho mesmo estranho que, até agora, nunca ninguém tenha feito uma sua biografia, num tempo em que isso está na moda. A menos que os potenciais biógrafos tivessem a consciência de que "you haven't seen it all". Se assim foi, tinham razão", é a resposta a uma intrigante constatação do embaixador Seixas da Costa, ainda quando se previa que Santana Lopes poderia avançar. O que vai mesmo acontecer, com uma apresentação de programa politico na próxima semana.

Pedro Santana Lopes (2009)