O economista e social-democrata Rui Rio defendeu hoje que o próximo Presidente da República (PR) pode funcionar como «detonador» para as reformas necessárias para devolver credibilidade ao atual regime político, funcionando como motivador da sociedade e dos partidos.

«Nada é possível sem a vontade dos partidos. Para isso é preciso a força da sociedade e ter o próximo PR como detonador daquilo que acho que deve ser acionado», sustentou o ex-presidente da Câmara do Porto, numa intervenção sobre os 40 anos do 25 de Abril na escola secundária de Penafiel.

Recusando a ideia de estar a entrar na corrida a Belém, Rui Rio destacou que o PR que suceder a Cavaco Silva «pode ser a chave para puxar os partidos e a sociedade às reformas necessárias» para reformar e dar «vitalidade» a um regime desgastado «pelo tempo».

«Como é que vamos pedir ao peru que vote a favor do Natal? É difícil. Mudar os partidos é difícil», justificou o economista, apelando à sociedade que seja «cada vez mais crítica para obrigar os partidos a repensarem tudo».

Questionado pelos jornalistas sobre se tem intenção de se candidatar à Presidência da República em 2016, Rui Rio respondeu com um «não, não, não», explicando estar apenas a fazer um «raciocínio lógico».

«A sociedade quer [a reforma do regime], pressiona até certo ponto, mas não tem assim tantos meios. Os partidos dizem que está mal mas depois não fazem nada de concreto. Como saímos deste impasse? O órgão da Presidência da República, pela sua natureza, pode ser o elemento detonador. É um raciocínio lógico, não vai para lá disso», assegurou.

Confrontado com a possibilidade de o cargo de primeiro-ministro ser mais adequado à implementação das medidas que defende, o social-democrata repetiu os três nãos e garantiu não ter em mente qualquer cargo.

«Não vou dizer que estou fora da política ou que não sou político. Tenho uma atividade cívica normal e vou continuar a ter. Isso não quer dizer que esteja no trilho para o cargo A ou B. Também acho que não posso coartar a minha participação só porque as pessoas podem pensar que estou com determinada intenção», esclareceu.

O que o economista defende é não ser possível «continuar a olhar passivamente para o afastamento completo das pessoas em relação à política sem nada fazer, até porque ao fim de 40 anos [depois do 25 de Abril de 1974] é normal que o tempo tenha desgastado o próprio regime».

«A sociedade mudou, tudo mudou, o regime tem de se adaptar. É difícil, mas a sociedade tem de pressionar e o PR pode ter aqui um papel importantíssimo», sustentou.

«Sabendo nós das dificuldades que os partidos têm em fazer essas reformas, aquilo de que precisamos é de uma sociedade com vitalidade que os pressione nesse sentido. Só isso não chegará. Penso que o próximo PR deveria ser um impulsionador dessa reforma. Parece-me que pode ser o elemento detonador de uma rutura com o que temos hoje, que abra novas esperanças, faça aproximar outra vez as pessoas da política e dê governabilidade às instituições», observou.

Programa cautelat

Rui Rio defendeu ainda que Portugal deve «sair da troika» com um programa cautelar porque isso significa «segurança» e é «bem mais prudente do que ir de peito às balas».

«Para mim é evidente que é muito melhor sair com um programa cautelar. Parece-me bem mais prudente do que ir de peito às balas», afirmou o ex-presidente da Câmara do Porto. «O simples facto de os mercados saberem que Portugal pode recorrer a uma linha de financiamento se as taxas de juro dispararem, por si só não deixa as taxas de juro dispararem», explicou.

Alertando que a palavra limpa «já foi escolhida justamente para parecer que a outra [a saída através de um programa cautelar] é suja», Rui Rio sustentou que, neste caso, «o contrário de limpo quer dizer com mais segurança».