Ramalho Eanes, o primeiro Presidente a ser eleito em democracia, elogia os primeiros tempos de governação de António Costa. Em entrevista à TVI e à TVI24, conduzida por Judite de Sousa, Eanes diz que “o atual o primeiro-ministro surpreendeu como estadista, com vontade política e determinação”.
 
Confessa que tem uma grande expectativa acerca da solução de governabilidade encontrada:
 

“Era inevitável. Não merecia a pensa pensar-se se era boa ou má. Era inevitável. É uma solução cheia de fragilidades, mas também cheia de potencialidades.”

 
O antigo chefe de Estado reconhece que era uma solução “inimaginável” no seu tempo de Presidente e, a esse propósito, recorda as razões que o levaram a criar Governos de iniciativa presidencial. “Fi-lo, primeiro, porque não havia possibilidade de entendimento interpartidário; segundo, não havia lei eleitoral (tinha caducado); e terceiro não havia um recenseamento eleitoral atualizado e tudo isso demoraria cerca de seis meses. Adotei uma solução que entendia que estava dentro das competências do Presidente, mas que foi uma solução de recurso”, sublinhou.
 

“Na altura, disse que os partidos, logo que quisessem podiam participar no Governo e podiam substituir o Governo. Numa democracia pluripartidária, os partidos têm de governar.”

 
Ramalho Eanes voltou a tecer duras críticas à austeridade imposta pelos Governos PSD/CDS-PP nos últimos anos e considera que se foi longe demais. “Procurámos, num período curto, resolver problemas de decénios. É evidente que teve um resultado positivo – voltámos aos mercados; mas teve os resultados perversos – o produto voltou aos níveis de 2000, o investimento voltou aos níveis de fins de 80 e o desemprego atingiu valores que se conhecem e o endividamento externo continua muito grande”, considerou.
 

“Sampaio da Nóvoa é um homem igual a nós”

 
Na mesma entrevista, Ramalho Eanes teceu rasgados elogios a Cavaco Silva, um homem que, diz, aprendeu a apreciar, “pela sua honestidade e pela sua vontade em mudar o país”.

“Foi por isso que o apoiei nas duas candidaturas e, hoje, apesar dos ataques que lhe dirigem, eu sinto-me honrado por tê-lo apoiado e não estou nada arrependido de o ter feito.”

 
E justificou o apoio manifestado nas próximas eleições presidenciais a Sampaio da Nóvoa: “Entendo que este homem tem qualidades invulgares: a inteligência, o saber… mas é um homem normal. É um homem igual a todos nós. E essa normalidade constitui um elemento extremamente importante numa perspetiva política. Entendo que é uma personalidade forte e é um homem bom.”
 
Elogio o trabalho do antigo reitor na Universidade de Lisboa e “depois disso fez uma coisa que não é muito habitual: retirou-se”. E sublinhou ainda: “Não tem ligações à elite política que governou o país.”
 
O general assegura que na decisão de apoiar Sampaio da Nóvoa não pesou o facto de o candidato ter recebido o apoio de outros antigos Presidentes da República. “Fiz o meu julgamento pessoal”, garantiu.
 

“Sou um velho. Estou no fim da vida. Olho para o futuro dos meus filhos e para o futuro dos meus netos. Mas, quando olho para os meus netos, vejo que não podem ser felizes num país infeliz. Mas reparo também que os netos dos outros são também meus netos.”

 

“É importante haver uma segunda volta”

 
Ramalho Eanes, que foi eleito Presidente da República por duas vezes e sempre à primeira volta, diz que é importante que haja uma segunda volta. “Eu não sei o que vai acontecer. Os portugueses é que dirão. Mas, pessoalmente, entendo que é importante haver uma segunda volta”, começa.
 

“Numa segunda volta há um confronto de duas personalidades e têm de se confrontar sobre todos os aspetos e sobre todas as questões. E isso permite um esclarecimento maior.”

 
Para Ramalho Eanes, o grande desafio do seu próximo sucessor passa pela “descrispação da sociedade portuguesa”. “Tornar menos crispada a sociedade portuguesa. Fazer com que essa descrispação seja acompanhada de um restabelecimento correto e realista do Estado Social, de tal maneira que haja inclusão e o Estado Social exerça a sua função”, acrescenta.
 
 
A propósito da participação do Partido Comunista numa solução de Governo e das reflexões sobre o PCP pós-Jerónimo de Sousa, Ramalho Eanes recordou Álvaro Cunhal, com quem teve “grandes divergências, publicamente assumidas”, mas a quem reconhece importantes qualidades.
 

“Era um homem encantador. Um homem com quem tudo se podia discutir. Um homem com quem se podia gracejar. Era um homem de grande humor.”

 
“É um homem que eu considero e de quem os portugueses se devem orgulhar.”