Choque, consternação, incredulidade. São estas algumas das palavras utilizadas por deputados do PS que esta terça-feira se encontram no Parlamento para a votação final global do Orçamento do Estado para 2015. O assunto é outro: a prisão preventiva de José Sócrates.

«A nível pessoal, sinto consternação, mas nada deve desviar o PS da afirmação dos seus ideais e da necessidade de se apresentar e reforçar como alternativa para país», afirmou a presidente cessante do PS, Maria de Belém.


No entanto, a socialista admitiu que desconhece os «fundamentos» para a prisão preventiva de Sócrates, considerando «estranho» que não se saiba mais.

«A informação disponível é pouca, o que para mim é estranho. Gostaria de saber mais, gostaria de não ter sido surpreendida como fui em relação a algumas fugas do segredo de justiça».


Maria de Belém reforçou que muitos socialistas «estarão tristes e incomodados», mas que o congresso deste fim de semana «tem a sua própria agenda». «Algumas coisas são muito importantes, temos de trabalhar, independentemente daquilo que se passa connosco», disse, visivelmente emocionada.

A presidente cessante do PS prometeu «deixar que a justiça faça o seu caminho», apelando aos «recursos» que José Sócrates pode utilizar e não admitindo que o partido fique ligado a esta situação.

«Pode haver a enorme tentação de fazer manchar instituições através de pessoas, mas devemos preservar o bom nome dos partidos políticos», concluiu.


Já o deputado Vitalino Canas sublinhou «alguma incredulidade e preocupação» e também «alguma ansiedade para perceber o que se passa».

«Temos muitas informações, mas pouco esclarecedoras, vamos ver. Posso manifestar o meu choque, mas é a justiça a funcionar. Sou amigo de Sócrates. Do ponto de vista pessoal, gostava de ter mais informação sobre o que se está a passar. Não posso deixar de dizer que fiquei chocado, mas é natural».


O socialista começou por dizer que esta situação terá um «impacto pequeno» para o partido, que terá «as suas redes de proteção». No entanto, admitiu que «todos estes casos têm sempre impacto ao nível opinião pública».

«A situação afeta mais as pessoas que estiveram e estarão próximas de José Sócrates (…) O PS, como grande instituição que é, suportará bem esta situação», prometeu.

O ex-ministro da Justiça socialista Vera Jardim já tinha declarado à Renascença estar convicto da inocência de Sócrates, mas reconheceu que o caso «é um embaraço» para o PS.

Também o ex-Presidente da República Mário Soares criticou o «anormal aparato fortemente lesivo do segredo de Justiça» na detenção do ex-primeiro-ministro José Sócrates, considerando que o que aconteceu «não pode passar em vão».

No Facebook, o deputado socialista João Soares considerou injusta a medida de coação de prisão preventiva aplicada a José Sócrates, salientando estar preocupado com a «promiscuidade entre política e os negócios e entre a Justiça e a comunicação social».

No Parlamento, José Junqueiro optou por destacar a «enorme estima» que tem por José Sócrates e o «grande constrangimento pessoal» que a situação lhe provoca.

«Desejo que ele possa demonstrar o contrário dos indícios que pesam sobre ele (…) Foi um orgulho ter participado no Governo dele e quero desejar que no futuro se possa fazer o contraditório de uma acusação que ainda não existe».


O deputado socialista admitiu o «custo» pessoal da situação, mas sublinhou que o partido está «estável» e «concentrado em ser uma alternativa de governo para o país».

«Há o custo de haver uma pessoa de que nos habituámos a gostar numa situação muito difícil, mas há a clareza do secretário-geral [António Costa] de dizer que uma coisa é a nossa vida afetiva e os sentimentos, outra é a realidade política». 


Já o líder parlamentar do PS, Ferro Rodrigues, aproveitou para, «do ponto de vista pessoal» e «em termos afetuosos», enviar «um abraço» à família de Sócrates, reforçando apenas as palavras de Costa no sábado.

«O secretário-geral pediu que distinguissem os sentimentos de amizade pessoal da necessidade do PS continuar a desenvolver as suas políticas de oposição ao Governo. E é o que hoje se passará e também no congresso do PS. As responsabilidades do PS no futuro do país são enormes e queremos honrá-las».


A ex-ministra da Cultura Gabriela Canavilhas também pediu para ser conhecido o fundamento da aplicação da medida máxima de coação a José Sócrates.

«Seria interessante saber qual é a fundamentação da medida de coação. É isto que nos incomoda, gostávamos de compreender a razão desta medida máxima. A própria lei outorga este esclarecimento».


A deputada socialista deixou ainda elogios ao ex-primeiro-ministro e prometeu que a amizade se mantém «incólume».

«Eu aprendi a conhecer um homem lutador, que pensava no país em primeiro lugar e é essa esperança que eu mantenho relativamente ao desfecho deste processo».
 


Já deputado socialista João Galamba afirmou que «a detenção de José Sócrates faz parte de um processo judicial e é assim que se deve manter» e que separar a política da Justiça é uma responsabilidade de todos.

«O que estou a dizer é que a detenção de José Sócrates faz parte de um processo judicial e é assim que se deve manter, é só isso que estou a dizer, não estou a dizer mais», afirmou João Galamba.


O parlamentar socialista respondia aos jornalistas na Assembleia da República, depois de questionado se considera que a prisão preventiva do ex-primeiro-ministro na segunda-feira à noite pode ter subjacentes motivações políticas.

«O importante aqui é garantir que nós não juntamos o que deve estar separado, e é só isso, temos de garantir que a separação da Justiça e da política não é apenas uma frase, é uma prática e uma prática de todos nós, é isso que se espera», afirmou o deputado do PS.


O socialista confessou ser «amigo de José Sócrates» e que «obviamente este é um momento difícil a título pessoal», mas frisou querer «viver este momento difícil como uma questão pessoal».

«Acho que é assim que devemos viver», declarou Galamba, que considerou que este é «um momento de enorme responsabilidade para todos, para a Justiça portuguesa, para o jornalismo português e para a política portuguesa».

O deputado do PS assinalou que «as instituições vivem dessa separação e a democracia portuguesa vive dessa separação» e que cabe a todos «assegurar que ela é garantida»: «Peço a todos vós, da maneira que o exijo a mim mesmo, que essa separação é mantida».