Os partidos políticos - da esquerda à direita - compreendem as reivindicações dos professores, que hoje estão em greve e se manifestaram frente ao Parlamento, para contagem de todo o tempo de serviço quando forem descongeladas as carreiras da administração pública. Depois de três horas de reunião ontem, sem acordo entre Governo e sindicatos, a paralisação sempre se concretizou e o maior partido da oposição, o PSD, acusa o primeiro-ministro de "falta de vergonha" na questão do congelamento da progressão das carreiras dos professores, por ter alegadamente imputado responsabilidades ao anterior governo.

"Este é um padrão recorrente de falta de vergonha do doutor António Costa. E quero dizê-lo com estas letras todas e desta forma: quem congelou a progressão das carreiras foi o Governo do engenheiro Sócrates. Quem levou o país à pré-bancarrota foi o Governo do engenheiro Sócrates, onde o dr. António Costa foi número dois na altura e durante muito tempo, de resto durante todo o consulado do engenheiro Sócrates, foi número dois no Partido Socialista", disse o líder parlamentar Hugo Soares aos jornalistas, à margem de uma visita ao pinhal de Leiria.

"Se o dr. António Costa tem vergonha de ter estado com o engenheiro Sócrates, quer no partido, enquanto dirigente e número dois, quer no Governo, então o dr. António Costa que o assuma. Agora, o que ele deve também é ter vergonha de constantemente não assumir as suas responsabilidades", acrescentou, citado pela Lusa.

Hugo Soares disse que o Governo "anuncia todos os dias que virou a página da austeridade" e que o país é hoje "absolutamente sustentável", com "crescimento esmagador, que já não há qualquer tipo de problema de consolidação das finanças públicas".

O deputado social-democrata considerou ainda "evidente" que na administração pública as progressões nas carreiras têm de ser descongeladas "o mais urgente possível" e que o PSD queria fazê-lo.

Agora, o Governo que virou a página da austeridade, que é precisamente o Governo do mesmo partido que as congelou, que encontre as soluções porque é a eles que compete governar. E que assuma as responsabilidades de uma vez por todas e se deixe deste passa culpas constante, que chega até a ser ridículo e na política o ridículo também mata".

CDS diz que posições dos sindicatos são "aceitáveis"

Já da parte do CDS-PP, a deputada Ana Rita Bessa defendeuque as posições dos sindicatos de professores são "bons pontos de partida, aceitáveis", para uma negociação, expressando compreensão pelo protesto dos docentes.

À partida, as posições que os sindicatos estabelecem de uma convergência - consoante os sindicatos, a dois, quatro ou dez anos -, parecem-nos ser bons pontos de partida, aceitáveis, para uma negociação".

A deputada ressalvou que o CDS não tem os dados para fazer as contas, tendo já dirigido perguntas ao Ministério da Educação sobre o número de professores em cada escalão, mas defendeu as posições dos sindicatos e disse compreender os motivos do protesto. "É preciso haver negociação, é preciso incluir os professores, é preciso fazê-lo com gradualismo e com critérios, mas o que não pode acontecer é que os professores sejam deixados de fora do conjunto dos funcionários da administração pública".

O CDS argumentou que "o Governo ignorou os professores no Orçamento do Estado, ignorou o seu tempo de serviço, ignora muitos professores que, por esta razão, não vão conseguir chegar aos patamares de carreira relativamente aos quais tinham legítima expectativa de vir a alcançar".

Achamos extraordinário a manifestação do PCP e do BE nesta matéria. Se fosse um ponto crítico para o Governo, para o PS, para o BE e para o PCP, esta matéria teria constado do Orçamento do Estado ou, em alternativa, BE e PCP teriam votado contra, como foi o caso do CDS".

Ana Rita Bessa defendeu-se das críticas à atuação do anterior governo PSD/CDS-PP dizendo que "estava no programa do Governo da PAF [coligação Portugal à Frente] que ia haver um descongelamento sem exceção".

PCP, BE e PEV do lado dos professores

O PCP, o BE e o PEV manifestaram também apoio aos professores. “Não podemos ignorar quem constrói a escola pública”, disse aos jornalistas a coordenadora do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, junto aos manifestantes. Para o Bloco, “não é aceitável ignorar a carreira dos professores”.

A dirigente do Bloco considerou justa a luta dos docentes e lembrou que questionou no parlamento o primeiro-ministro, António Costa, sobre o descongelamento da carreira docente.

Catarina Martins defendeu que o Ministério da Educação tem de encontrar uma solução para os professores não serem penalizados no tempo de serviço.

Não haja dúvida de que sem luta não se conseguem alcançar objetivos e a luta que os professores estão hoje aqui a travar é um contributo importantíssimo para que a solução para esse problema avance”.

O PCP, por sua vez, garantiu que apresentará a proposta necessária para garantir a contagem do tempo de serviço para os professores e para todos os trabalhadores da Administração Pública que se encontram na mesma situação dos docentes e que “correm o risco de ver tempo de trabalho deitado fora”. "Isso é inadmissível”.

A deputada Heloísa Apolónia, do Partido Ecologista Os Verdes, manifestou “total solidariedade” para com os professores e defendeu que o congelamento das carreiras “nunca deveria ter existido”. “O que os professores reclamam é justiça, que o seu tempo de serviço não seja apagado”, disse.