Lá estão eles. Todas as noites. De cor branca a espreitar pelo panfleto da candidatura de Edgar Silva. São tímidos e não é fácil apanhá-los. Mas estão sempre a postos para receber o contributo. Lá fora, à porta do comício, começa a linha de montagem. Um frenesim quase industrial. Um elemento da estrutura local do PCP tem dois molhos em cima do balcão. Um de panfletos, outro de envelopes. O movimento é quase mecânico, de quem já está habituado à labuta. Abre o panfleto, dobra o envelope, esconde o envelope, fecha o panfleto. E novamente. Abre o panfleto, dobra o envelope, esconde o envelope, fecha o panfleto. É assim às centenas por aqui. Aos milhares no país. 

A seguir passa para a fase seguinte. Está na hora de distribuir. O grupo de idosos que passa é o alvo certo. Lá vai um. Dois. Três. Uma mão cheia de panfletos de candidatura e... de envelopes. Pergunto a um deles o que traz na mão. "Uma fotografia do Edgar Silva". "E o envelope? Não sei para que serve", responde o senhor de bigode farfalhudo. A mulher, sentada ao seu lado, solta um sorriso e interpela o questionário. "O meu marido é muito reservado!". O homem confirma e diz para falarmos ali com "a patroa". Ela, de cabelo já todo branco, explica timidamente e com pinças que o envelope é para deixar uma "simpatia". Ninguém usa a palavra dinheiro. Conta que é sempre assim, sempre foi, o partido a contar com a "atençãozinha" dos militantes.

Quem quer põe dinheiro no envelope, fecha-o e entrega-o. "É como o voto, é secreto. E ninguém sabe quanto dá? Ninguém sabe, pois", atesta contente. Só o partido sabe. Refere que ninguém pede, mas os envelopes lá estão todas as noites à porta dos comícios à espera de serem usados.

Quem os distribui tem vergonha. Ou pudor. Fogem das câmaras como gato foge de água. Viram costas, ficam incomodadas, olham de soslaio. Só não abandonam o posto de distribuição porque a ordem é para ali estar. O grupo de senhoras que dá os envelopes fica incomodado com o olhar indiscreto dos jornalistas. Chama o organizador do evento, que lança um olhar reprovador aos repórteres. A distribuição continua, ao mesmo tempo que foge das lentes das câmaras. Aproximo-me e peço um panfleto. Aflição no rosto. Não pode negar-me um. Dá-mo após cinco segundos de silêncio e de hesitação. Dá-mo, mas tira o envelope. Pergunto para que serve. Não obtenho resposta, apenas um sorriso aflito e comprometido. Pergunto novamente. Continuo sem resposta. Insisto e à terceira solta-se um fraco e quase inaudível "é para contribuições". A colega de labuta, ao lado, mais astuta, salta em salvação da camarada e diz que é para "deixarem perguntas que queiram fazer". 

No final, lá está o saquinho cor de laranja à espera de ficar recheado. À porta, o mesmo grupo que os distribuiu agora recebe os envelopes recheados. No fim, saem envergonhadas, com o saco escondido debaixo de um casaco comprido.

Se me tivessem dado um envelope quando pedi, teria deixado uma pergunta. Afinal, para que esconde o partido o dinheiro que os militantes lhe dão por amor à camisola?