O provedor da Santa Casa da Misericórdia, Pedro Santana Lopes, considerou este sábado que a detenção do ex-primeiro ministro José Sócrates um facto «triste para Portugal» e que levanta questões quanto ao «ponto a que o Estado chegou».

«É, obviamente, um dia triste para Portugal e para os portugueses», declarou Santana Lopes, na Guarda, aos jornalistas, à margem da Academia do Poder Local, que decorre até domingo, promovida pelos Autarcas Sociais Democratas (ASD) e pelo Instituto Francisco Sá Carneiro.

Referiu que nos últimos dias o país tem assistido a uma sucessão de factos que preocupam quanto à solidez da estrutura do Estado, a modo como o Estado funciona, como «representa, defende e garante».

«Aqui, pelo que a Procuradoria-Geral da República divulgou, estarão em causa atos pessoais no exercício de funções públicas, ou não, isso agora cabe à justiça tratar, mas eu penso que nos sentimos todos, naturalmente, eu diria, acabrunhados, tristes, é a melhor palavra, por aquilo que está a acontecer em Portugal».

Santana Lopes espera «que se faça justiça, pelas pessoas, por Portugal, pelos portugueses».

«A justiça está a funcionar, temos que nos congratular com isso, mas é evidente, ninguém pode ficar satisfeito com situações como aquelas que estamos a viver», disse.

Reconheceu que, «nenhum Estado é perfeito» - «mas o nosso parece estar a funcionar e a tratar todos os cidadãos por igual, isto é um ganho», acrescentou.

O antigo primeiro-ministro disse também esperar «que se faça justiça» e, em sua opinião, «se alguém pecou, se alguém errou, se alguém cometeu crimes, que pague, se não, também que seja respeitada a sua inocência».

«Agora eu compreendo e é isso que é também é triste, que os portugueses olhem para a política, olhem para todo este espetáculo e depois tomem as pessoas todas pela mesma bitola», declarou.

Mostrou-se ainda preocupado «com o ponto a que o Estado chegou».

«Nós atingimos um Estado de quase insolvência institucional, depois de um Estado praticamente de insolvência económica, e isso, as duas coisas misturadas, deve suscitar muitas preocupações e exige uma regeneração ética, acima de tudo, na sociedade portuguesa, sobre as regras que todos nós temos que seguir no exercício das nossas funções públicas, na comunicação, funções privadas, o que for, autarcas, poder central, porque há aqui qualquer, de facto, coisa que ruiu», afirmou.

O ex-primeiro-ministro José Sócrates foi detido na sexta-feira à noite, quando chegava ao aeroporto de Lisboa proveniente de Paris, no âmbito de um processo de suspeitas de crimes de fraude fiscal, branqueamento de capitais e corrupção.

Esta é a primeira vez na história da democracia portuguesa que um antigo primeiro-ministro é detido para interrogatório.

Além de Sócrates, foram detidos, na quinta-feira, o empresário Carlos Santos Silva, o advogado Gonçalo Trindade Ferreira e o motorista João Perna, anunciou a Procuradoria-Geral da República ao início da tarde de hoje.