O deputado comunista, Miguel Tiago, acusou PSD e CDS-PP de se comportarem como "capatazes" das instituições europeias, designadamente quanto às eventuais sanções por incumprimento da meta do défice de 2015, como a suspensão de fundos comunitários. Os deputados do PCP apresentaram um voto de protesto e repúdio contra eventuais sanções por incumprimento da meta do défice de 2015. 

Citando o filme do realizador norte-americano Quentin Tarantino "Django", o parlamentar do PCP comparou sociais-democratas e democratas-cristãos à personagem de escravo que ascende a capataz e se revela mais sanguinário que o seu patrão, numa declaração política na reunião plenária da Assembleia da República.

"Capatazes das grandes potências europeias a quem, mesmo enquanto Governo, se orgulhavam de prestar vassalagem. PSD e CDS rejubilam com toda e qualquer medida de chantagem ou pressão que possa criar dificuldades à recuperação de direitos e rendimentos", indignou-se, lamentando a "posição de capataz que faz queixinhas à União Europeia sobre a ousadia do seu povo".

Para Miguel Tiago, "a pressão exercida agora - as sanções - não traduz um mero instrumento orçamental ou económico da UE, mas um instrumento político, de chantagem, de ingerência, que denuncia a natureza e a matriz ideológica da UE".

"A mensagem não é dirigida ao Governo, mas a todos os portugueses. Pretendem dar uma lição - não ousem decidir do vosso destino, construir o futuro, querer a riqueza que produziram nem reconstituir direitos que vos foram roubados", afirmou, criticando cada euro que os portugueses perdem para a "agiotagem" e salvar a banca privada.

O deputado do PSD, Costa da Silva, esclareceu que o seu partido sempre se disse "contra quaisquer sanções a Portugal", embora, no momento, considere que "quem tem de cumprir ou não as condições é o PS, que é quem governa", lamentando que o executivo socialista esteja a "suspender os fundos para a mobilidade e regeneração urbanas, o património cultural, cuja taxa de execução é zero".

"O CDS rejeitou desde início estas sanções. [A eventual suspensão de fundos comunitários por Bruxelas] não só é desadequada como é estúpida. Não faz qualquer sentido que as instituições europeias tenham esta atitude", respondeu também o deputado do CDS-PP, João Almeida, lembrando o contexto histórico de construção da União Europeia por oposição ao bloco soviético, concluindo que Miguel Tiago apoiaria este último, entretanto desagregado e cujos membros "quiseram ou ainda querem aderir" à UE.

O deputado bloquista Jorge Costa afirmou que "o processo das sanções foi bem ilustrativo da desorientação e falta de projeto e de rumo" da UE e acusou "a direita" (PSD/CDS-PP) de se colocar "fora desta fotografia" quando "o período a que [as supostas sanções económicas] respeitam é ao do défice de 2015", com a governação de sociais-democratas e democratas-cristãos, agora de "sorriso amarelo".

O parlamentar socialista Hugo Costa, ressalvando que o PCP tem uma conceção e perspetiva diferente do PS sobre a construção europeia, sublinhou que o seu partido "também não apresenta a visão acrítica que o PSD apresenta" sobre Bruxelas e suas regras, desafiando ainda sociais-democratas a apresentarem propostas para o Orçamento do Estado para 2017.

"É estranho que se venha falar de sanções", disse o deputado ecologista José Luís Ferreira recordando que em toda a história da UE vários países ultrapassaram o défice, "umas cerca de 160 vezes e só a França por 11 vezes", frisando que "o défice de 2015 é inteiramente da responsabilidade do governo anterior (PSD/CDS), que "seguiu religiosamente" em "obsessão absoluta" as orientações da UE.

Miguel Tiago vincou que "o PCP denuncia e dá firme combate a toda a arquitetura da UE que permite sequer que sejam equacionadas sanções económicas", criticando o facto de as instituições europeias assumirem "um papel de censor, distribuidor de castigos, quando sempre" foram vendidas "como apoio ao desenvolvimento e livre união de Estados".