A autora da biografia autorizada do primeiro-ministro, Sofia Aureliano, confirmou que existiu, de facto, uma SMS de Paulo Portas para Passos Coelho em julho de 2013, aquando da crise política, a informar que se ia demitir.

No entanto, em entrevista à TVI24, Sofia Aureliano desvalorizou toda a polémica e garante que o pedido de demissão acabaria por ser formalizado por carta, tendo servido a SMS para mera informação prévia.
 
(Sofia Aureliano, autora da biografia de Passos Coelho)

A autora diz que essa informação não foi referida na biografia, porque na “realidade não interessa”. A intenção passou por tentar mostrar o pouco tempo que Passos Coelho teve para “refletir” durante todo aquele dia.

“Aconteceu a receção de um SMS em que, efetivamente, o dr. Paulo Portas informava que pretendia demitir-se. Não é uma demissão, é uma intenção de se demitir. (…) A formalização da demissão terá sido feita por carta, [e] isso não é referido, porque na realidade não interessa.”


“O que interessa referir é que durante essa tarde [Passos Coelho] teve pouquíssimo tempo para decidir o que ia fazer. Teve dez minutos entre Comissão Permanente, tomada de posse, Conselho de Ministros extraordinário e a comunicação ao país. Teve cerca de 10 a 15 minutos para refletir, é por isso que este momento é relatado, de uma forma factual".

Sofia Aureliano diz que não houve intenção de fazer um “caso”, até porque Passos Coelho e Paulo Portas falam por SMS “diariamente”.

“Não há aqui nenhum empolamento, nem houve nenhuma tentativa de fazer disto um caso, porque [Passos e Portas] comunicam por SMS diariamente”.

 
Durante a entrevista, Sofia Aureliano desmentiu, ainda, que tenha sido Passos Coelho a afirmar que Cavaco Silva deixou o governo em “banho-maria”, referindo-se à altura que o Presidente da República pediu um entendimento entre os três principais partidos (PSD, CDS e PS), durante a crise política de 2013.

“Não foi Pedro passos Coelho que disse que o Presidente da República deixou a coligação em banho-maria, fui eu. Isto é uma biografia autorizada, (…) é uma frase da minha autoria. Eu é que disse que durante esse período o governo de coligação esteve em suspense. (…) O ‘banho-maria’ é uma expressão que não foi, de todo, dita pelo primeiro-ministro e está identificada no livro, não é uma citação.”

A autora deixou, também, claro que Passos Coelho não conhece o alinhamento do livro, nem as histórias contadas nele, nem tão pouco “o produto final”.

“É uma biografia consentida, o que significa que ele autorizou, participou, deu acesso. Nunca leu o excerto do livro, não conhece o alinhamento que eu dei, nem as histórias que eu contei. Toda a seleção feita faz parte de uma interpretação que eu fiz, e faz parte da seleção que eu quis dar. [Passos Coelho] não conhece o produto final.”


Sofia Aureliano desvaloriza, ainda, a altura escolhida para o lançamento do livro – por estarmos em ano de eleições – e diz que se tratou, apenas, de uma decisão estratégica, dada a aproximação da Feira do Livro.

“Relativamente ao timing, ser precisamente em maio é uma questão editorial. A Feira do Livro começa a 28 de maio, portanto, editorialmente, faz sentido que [o livro] esteja presente na Feira do livro. Não tem a ver com mais nada.”
 

“Não me tinha passado pela cabeça [escrever] sobre Passos Coelho”


Já sobre o processo de escrita da biografia, em particular, Sofia Aureliano diz que sempre quis escrever uma biografia, ainda que nunca tenha imaginado escrever sobre o atual primeiro-ministro.

“Sou leitora de biografias, gosto muito de biografias e do género de biografia política. Acho que em Portugal se fazem poucas, e acho importante conhecermos as figuras que nos governam, ou que nos podem vir a governar. (…) Sempre tive um desejo secreto de escrever uma biografia, não me tinha passado pela cabeça escrevê-la sobre Pedro Passos Coelho até efetivamente ter começado a reparar nele, no sentido de perceber o estilo de governação diferente, um estilo de liderança diferente, que me despertava algum interesse”

Conseguido o consentimento do primeiro-ministro, seguiram-se uma série de conversas com Passos Coelho e com pessoas próximas do primeiro-ministro.

“Depois de ter o consentimento [de Passos Coelho], que não foi, de todo, imediato, (…) comecei com uma primeira conversa com ele, longa, em que identifiquei uma série de pessoas com quem ia falar. (…) Depois fui falando com ele, depois de já ter alguns testemunhos, para ter versões de histórias que fui descobrindo ao longo da investigação que fui fazendo", disse Sofia Aureliano.