"À medida que ia ouvindo a senhora deputada foi crescendo em mim a curiosidade para saber os termos do acordo político que terão alcançado com o PS. É verdade. A generalidade dos portugueses, creio eu, não percebeu bem quem catequisou quem. Quem é que saltou o muro, se deixou de existir, se passou a imaginário e quais são as posições relativas de cada um", ironizou, acrescentando que tem "a certeza que essas dúvidas" serão esclarecidas em breve. 

Passos entende que o BE " mudou pouco a sua posição", logo isso "deixa pistas sobre e o que se terá passado com o muro que foi transposto"

"Parece-me que aqui o feitiço começa a virar-se para o feiticeiro. E que quem julga que vai mudar o país é o PS [pode não ser assim]. Aconteça o que acontecer no debate e nas moções de rejeição, os portugueses mudaram menos a sua conceção da sociedade do que a senhora deputada desejaria"

Ora, o que disse Catarina Martins? Que o que se está a debater na Assembleia da República é "um programa que antes de o ser já não o era" e que "foi a democracia que rejeitou este programa". Não as "jogadas políticas".

Depois, centrou o seu ataque ao dito documento no tema das privatizações, concluindo que o que a coligação pretende é uma "gigantesca transferência de recursos públicos para mãos privadas, com o Estado a demitir-se de todas as suas funções, criando uma rede clientelar de IPSS e negócio privado da saúde".

"O programa de Governo não é nem programa, nem este um Governo. É uma central de vendas e este um programa de negócios. O que este governo quer fazer é vender todas as partes deste país"

Passos Coelho contestou essa teoria: "Atribuir-e a intenção de querer transformar em negócio e coisas pouco claras naquilo que é no fundo contratualização que devemos fazer com a sociedade civil, tenho de discordar de si, não vejo onde esteja o negócio".

E, mais uma vez, insistiu que o BE continua a ter posições extremadas, sugerindo que são incompatíveis com aquilo que o PS apregoa: "Gostaria muito que senhora deputada abandonasse conceções radicais e orgânicas sobre papel do Estado e reconhecer iniciativa dos cidadãos que não seja limitada à iniciativa pública. Todos temos direito de ter uma vida que não seja controlada pelo Estado. Isso continua radicalmente a separar-nos".

A deputada do BE ainda colocou uma pergunta ao primeiro-ministro: "Este programa que apresenta para o Governo será também o programa da oposição? É que eu tenho memória: lembro-me que em 2011 existia um Passos Coelho na oposição que se opunha a cortes nos salários e aumento de impostos. Será que vou ter o prazer de o reencontrar?". Passos acabou por não responder. 

 

Catarina, "a líder da troika de esquerda"

Da parte do CDS-PP, o primeiro a intervir foi o líder de bancada Nuno Magalhães, que enfatizou que “os portugueses deram confiança ao primeiro-ministro esperando que não tenha ido buscar o programa do PS ao caixote do lixo”

 

Acusou ainda António Costa de se ter “furtado” ao debate. E de seguida dirigiu-se a Catarina Martins, “a líder da troika de esquerda”, como a classificou, e às suas considerações sobre os acordos entre o Governo e as IPSS: “É uma ofensa e um insulto a todos os que lá estão. O que pensará o PS de tudo isto?”, questionou.

 

“Onde é que vai estar? No governo ou na oposição? Não quer ser acusada de ter cobardia politica e não assumir responsabilidades. Connosco, o crescimento económico é superior a zona euro. Não sabemos com a troika esquerda”.

Passos pegou nessa linha de discurso, na resposta ao deputado do CDS-PP: “Se ganharem adesão a ideais, como tenho vindo a observar, que implicam a degradação do processo de consolidação que temos vindo a registar, existe por parte dos investidores e dos credores [o receio] que acabe por penalizar a economia portuguesa”.

O primeiro-ministro considerou, de resto, que o país " já está a pagar um preço pelo que eventualmente possa suceder no encerramento" do debate: a Bolsa de Lisboa, hoje, afundou mais de 4% e os juros da dívida dispararam.