“Há uns quantos mitos urbanos: um deles é o de que incentivei os jovens a emigrar.” A afirmação é de Pedro Passos Coelho e já está a causar polémica. Nas redes sociais, os utilizadores não poupam nas críticas às declarações do primeiro-ministro, feitas à margem de uma cerimónia que assinalou os 75 anos do Portugal dos Pequenitos, em Coimbra.
 


O incentivo de Passos à emigração, fenómeno que se tem intensificado nos últimos anos devido à crise e ao desemprego, remonta a dezembro de 2011 e a uma entrevista ao "Correio da Manhã". O chefe do Executivo, quando questionado se aconselhava os professores excedentários a procurarem emprego noutros sítios, sugeriu que os docentes olhassem para o mercado de língua portuguesa como uma "alternativa".

"Nos próximos anos haverá muita gente em Portugal que ou consegue nessa área fazer formação e estar disponível para outras áreas ou querendo-se manter, sobretudo como professores, podem olhar para todo o mercado de língua portuguesa e encontrar aí uma alternativa". 


A emigração tem sido, de resto, um dos pontos que tem gerado mais críticas, quer da oposição, quer da opinião pública, ao Governo PSD/CDS. O discurso dos membros do Executivo sempre foi muito idêntico neste aspeto: a emigração como alternativa face ao desemprego. Dos jovens aos professores, foram vários os visados ao longo da legislatura.

O primeiro a pronunciar-se sobre o assunto foi o secretário de Estado do Desporto e da Juventude, Alexandre Mestre, a 30 de outubro de 2011. O governante apelou aos jovens desempregados para que saíssem da sua zona de conforto, numa conferência com representantes da comunidade portuguesa e jovens luso-brasileiros, em São Paulo.

“Se estamos no desemprego, temos de sair da zona de conforto e ir para além das nossas fronteiras.”


Depois, foi Miguel Relvas, o então ministro-adjunto dos Assuntos Parlamentares, a 16 de novembro de 2011. No Parlamento, numa reunião sobre o Orçamento do Estado para 2012, Relvas deu o mesmo conselho, afirmando que emigrar pode ser "extremamente positivo".

“Quem entende que tem condições para encontrar [oportunidades] fora do seu país, num prazo mais ou menos curto, sempre com a perspectiva de poder voltar, mas que pode fortalecer a sua formação, pode conhecer outras realidades culturais, [isso] é extraordinariamente positivo."


Mais recentemente, na semana passada, o ministro Adjunto e do Desenvolvimento Regional, Miguel Poiares Maduro, reacendeu o debate sobre este tema. Durante a audição parlamentar na comissão para a Ética, a Cidadania e a Comunicação, o ministro desvalorizou o aumento da emigração nos últimos anos, que coincidiu com a crise económica, afirmando que não é mais do que "o prolongamento de uma tendência passada”, que vem "desde a Segunda Guerra Mundial".

“O aumento da imigração entre 2008 e 2013 é o prolongamento de uma tendência passada. [...] Entre 2008 e 2013, o valor médio (de emigrantes) aumentou em 13 mil indivíduos. [...] É uma constante desde a Segunda Guerra Mundial, embora com intensidade variável.”.


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