O secretário-geral do PS criticou este domingo a «autossatisfação» do primeiro-ministro, porque ninguém pode satisfazer-se com a situação do país, nem orgulhar-se de «cofres cheios», quando há 2,7 milhões de portugueses a viver abaixo do limiar de pobreza.

«O primeiro-ministro está cheio de autossatisfação, mas, infelizmente, não é esse contentamento que os portugueses têm perante a realidade do país e ninguém pode ser indiferente à situação em que estamos», disse António Costa aos jornalistas, durante uma visita a uma exploração agrícola no concelho de Beja, no Alentejo.


O líder do PS reagia a declarações do presidente do PSD e primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, que hoje disse que quem ficou ofendido porque a ministra das Finanças disse que Portugal tem os cofres cheios devia ficar ofendido por saber que quando o Governo tomou posse «os cofres estavam vazios» e foi isso que «custou muito desemprego» e muitas medidas difíceis.

«Andámos 10 anos para trás em matéria de riqueza produzida, andámos 20 anos para trás em matéria de emprego, andámos 30 anos para trás em matéria de investimento e andámos 50 anos para trás em matéria de imigração. Ninguém pode estar satisfeito com esta situação e fico preocupado pelo primeiro-ministro não perceber a realidade em que estamos e, em vez de querer alterar, querer, pelo contrário, dar continuidade a esta política», lamentou António Costa.


Segundo o líder do PS, «de facto, não é bom ninguém orgulhar-se de ter os cofres cheios quando temos dois milhões e 700 mil portugueses a viver abaixo do limiar de pobreza, um desemprego acima dos 13%, o recuo na capacidade de investimento».

Por isso, «é um erro» dar continuidade a esta política, disse, defendendo que seria «necessário mudar para podermos recuperar este tempo que temos estado a perder» e «agir de forma a relançar a nossa economia» para «entrarmos num processo de recuperação e não neste processo de estagnação em que estamos com uma carga fiscal brutal, o investimento a cair, o emprego sem se desenvolver e com a riqueza 10 anos atrás do que aquela que deveria estar».

Questionado pelos jornalistas sobre se Portugal está pior do que em 2011, quando o atual Governo PSD-CDS/PP tomou posse, António Costa disse que «o país está diferente e, certamente, pior em muitos aspetos».

Portugal «não andou para a frente, andou para trás» e há quem diga que «foi um esforço necessário para podermos gerir a nossa dívida», mas, «no início desta crise, a dívida era muito grande e era 97% do Produto Interno Bruto (PIB)» e hoje «está quase nos 130% do PIB», disse.

«Gastamos hoje em serviço da dívida 5% da riqueza nacional, são cerca de 8 mil milhões de euros, é praticamente tudo o que o Estado obteve de receita no processo de privatizações», disse, referindo que, «depois de se ter privatizado tudo, a receita que se obteve corresponde ao que este ano se está a pagar em juros».


Portanto, «achar que estamos melhor é um erro, que significa que o primeiro-ministro o que deseja é prosseguir esta política e isso, de facto, seria mau para o país», alertou.

Questionado sobre a declaração de hoje de Pedro Passos Coelho sobre o BES, António Costa disse que não a ouviu, mas já ouviu «as declarações de todos aqueles que foram levados ao engano a investirem num banco que as autoridades públicas diziam que tinha toda a viabilidade e que perderam as poupanças das suas vidas».

«Esses é que eu tenho ouvido, e de uma forma bastante ruidosa, e relativamente a esses não tenho ouvido respostas da parte do Governo», lamentou.