O ex-dirigente do PSD Pacheco Pereira criticou esta sexta-feira o primeiro-ministro pela resposta, com «uma componente autoritária», dada ao manifesto subscrito por 70 personalidades e defendeu que o documento tem «muito mais bom senso» do que a política governamental.

A resposta de Pedro Passos Coelho, disse Pacheco Pereira, «não tem pés nem cabeça», evidenciando sim «uma certa componente autoritária, que é dizer que há certas coisas que não se podem discutir».

«A discussão é para pessoas que não têm funções governativas, que estão na sociedade civil, e que têm todo o direito de discutir tudo. Em democracia há o direito a discutir tudo», defendeu.

O ex-dirigente social-democrata e atual comentador político falava à agência Lusa em Évora, à margem do VIII Fórum Nacional do Sindicato dos Inspetores da Educação e do Ensino, onde foi um dos oradores convidados.

Pacheco Pereira aludia ao manifesto pela reestruturação da dívida subscrito por 74 personalidades, quer de esquerda, quer de direita.

O documento, divulgado na terça-feira, considera que a dívida pública de Portugal é insustentável e que não permite ao país crescer, defendendo uma reestruturação que deve ocorrer no quadro europeu.

Na quarta-feira, o primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, disse que o assunto «está totalmente fora de questão» e acusou os subscritores de serem «os mesmos que falavam na espiral recessiva».

Para Pacheco Pereira, «uma das razões» pela qual «o manifesto dos 70 foi perturbador é porque tem muito mais bom senso do que a política governamental», sendo que «o bom senso, em alguns casos, é subversivo».

Por outro lado, continuou, o manifesto «mostra que há na sociedade portuguesa um consenso transversal, que é aquilo para que se está sempre a apelar, só que não é na base da política do Governo».

O comentador defendeu também o timing em que o documento surgiu. «Estamos a dias» de regressar aos mercados, pelo que «é preciso saber como vai ser o nosso futuro».

«E, como os portugueses não têm direito de discutir o plano cautelar, se é saída limpa ou não, qual o papel do pagamento da dívida nos próximos anos, não têm direito de discutir nada», porque a ideia é a de que «estas coisas são para serem resolvidas pelas elites económicas, financeiras e políticas, é evidente que a altura é esta», o que «também é perturbador para quem não quer que isto se discuta», disse.

Outro dos oradores no fórum, o economista eurocético João Ferreira do Amaral, defensor de que Portugal deve sair do euro, disse à Lusa perceber «muito bem que estas pessoas», signatárias do manifesto, «tenham levantado a questão» da reestruturação da dívida, a qual «é muito importante».

Os subscritores do manifesto «fizeram muito bem», afiançou o economista, embora realçando que a sua «visão é diferente» e criticando o «histerismo, até da parte das autoridades», que surgiu em torno desta questão.