Maria Luís Albuquerque fez esta terça-feira o seu previsivelmente último discurso enquanto ministra das Finanças, no debate do programa de Governo que deverá cair já hoje à tarde, depois das moções de rejeição que serão apresentadas por toda a esquerda. Nesta despedida de governante - foi eleita deputada -, enumerou uma série de ameaças que crê que a esquerda pode concretizar, pondo em causa o trabalho feito pelo Governo.

Defendendo que fez o trabalho de casa e a deixa em ordem, a ministra diz que "qualquer governo tem hoje possibilidade de iniciar mandato com conhecimento pleno da realidade orçamental, sem receios de surpresas e sobretudo sem desculpas para os seus próprios fracassos". Ontem, também já Passos Coelho tinha deixado ao PS o aviso de que o défice abaixo de 3% no final de 2015 está na mão, não vale o PS arranjar subterfúgios para o empolar, imputando essa responsabilidade ao Governo.

"Todos sabemos bem demais que os desvios da trajetória da consolidação por aqueles que procuram ganhos políticos de curto prazo serão pagos por nós, condenando os nossos filhos à precariedade e à incerteza".


E é essa a ameaça que a esquerda traz consigo, defendeu: "Que ninguém duvide" que se Portugal se desviar do atual caminho, enfrentará "um quarto resgate, não um segundo, mas um quarto resgate em menos de 40 anos". Os sacrifícios, esses, "seriam bem mais duros do que aqueles ficaram para trás", avisou.

Para além disso, há o exemplo lá fora que, entende, justifica as suas advertências.

"Tristemente a história recente da Grécia: a revolta contra as regras da Europa. O que ganharam com essa experiencia? Mais recessão, mais pobreza"


Em Portugal, o cenário é diferente. Ou era até aqui: "Este Governo não decide e não trabalha para os mercados. O que fizemos foi trabalhar para os portugueses, para estarmos menos dependentes dos mercados". 


"Cofre cheio, para que saibam"


"Portugal está hoje inegavelmente melhor", assegurou. Deu o exemplo do desemprego, que desceu "para valores que herdámos" em 2011, a confiança empresários, o índice de bem estar, emprego, o turismo. a escolaridade obrigatória no 12º ano, entre outros. E repescou uma expressão que já tinha usado antes quanto às contas públicas.

"Temos uma situação consolidada, margem financeira, uma reserva financeira, um cofre cheio – para que saibam do que eu estou a falar - com quase 7,8 mil milhões de euros"


Daí que todos acreditam já ser alcançável saída de Portugal do procedimento de défices excessivos este ano. Só a oposição não o quer reconhecer". Insistiu nisso mais à frente: "Seria criminoso pôr em causa essa meta".

"A necessidade de consolidação das contas públicas não é uma questão ideológica. É questão de realismo e, sobretudo, uma questão de responsabilidade. Pelo interesse nacional, muito mais do que os compromissos internacionais", acrescentou ainda.

O governo atuou sempre com "total transparência quanto à evolução de despesas e receitas", insistiu, contrariando a ideia expressa por António Costa na TVI, no âmbito das negociações infrutíferas com a coligação, de que o atual Governo iria deixar "desagradáveis" surpresas para os portugueses. 

Apesar de muito provavelmente já não protagonizar a devolução da sobretaxa de IRS, Maria Luís assumiu na mesma o "compromisso de devolver os rendimentos o mais rapidamente tanto quanto possível, sem comprometer o que já se conseguiu"." Que o que agora se recupera não seja retirado mais tarde, em dobro", espera.
 

"Não consigo esconder o meu entusiasmo"


Maria Luís foi ainda interpelada pela deputada do Bloco de Esquerda Mariana Mortágua, que acusou a coligação de ter querido, nos últimos quatro anos, "convencer o povo que só há o caos", ao que a governante respondeu: "Tenho muita esperança que não seja o caos e espero que quem venha a assumir responsabilidades que não o provoque".

Mortágua ainda citou os problemas da emigração, a "austeridade ideológica na pobreza", os cortes das pensões, o aumento de impostos, o Novo Banco pago pelos contribuintes.

"Não nos esquecemos como tentaram esconder os dados do desemprego, das migrações, e quiseram castigar o trabalho e levantar impostos a grandes empresas. É uma escolha ideológica. Esta será a última vez que debatemos aqui, neste modelo, e eu não consigo esconder o meu entusiasmo"

 
A ainda governante contestou: "Relativamente ao custo dos contribuintes para o Novo Banco sugiro que perguntem ao parceiro de coligação que quer pôr dinheiro dos contribuintes no Novo Banco. Não foi isso que fizemos e não é isso que queremos fazer" e "não é verdade que estejamos a beneficiar o grande capital".