E por fim, ao sétimo dia de campanha, o maior banho de multidão. Maria de Belém esteve na feira de Valongo, na manhã deste sábado, onde foi calorosamente recebida pelos populares. Abraços e beijinhos que ficaram para a fotografia. E um testemunho dramático que marcou esta ação de campanha. A candidata tem dito que, como Presidente, quer estar "junto das pessoas", mas esta foi a primeira vez em que o demonstrou na rua, num ambiente imprevisível, cheio de rostos, nomes e problemas concretos. 

Valongo acordou este sábado com um sol gelado que pedia muitos agasalhos. Maria de Belém chegou à feira da cidade já passava das 9:00, para aquela que era a sua segunda ação de campanha na rua. A primeira, também numa feira, na Nazaré, soube a pouco, uma vez que a comitiva chegou ao local quando o recinto já estava praticamente vazio.

Contudo, este sábado foi diferente. E começou logo com o testemunho que viria a marcar a arruada. Maria da Glória, de 61 anos e que vive em Valongo há mais de 30, não conteve a emoção quando se dirigiu à candidata. O filho, de 42 anos, e que tem ao seu cuidado, sofre de esquizofrenia e não pode trabalhar. Mas cortaram-lhe a pensão que recebia por incapacidade.

"Ele está sempre na cama. Não se segura de pé nem para comer. Esse ladrão do Passos Coelho cortou-lhe a reforma com 80% de incapacidade. Esse ladrão, tirava-lhe as orelhas se o visse."


E no meio da revolta que lhe tomou conta do rosto, quase em lágrimas, e da voz, trémula, Maria da Glória explicou que se não fosse o apoio da autarquia teria passado fome. Até porque tem problemas de saúde e gasta muito dinheiro em medicamentos. Ao seu lado, a amiga corrobora a sua história: "É verdade sim senhor, se não fossem os apoios ela passava fome". 

Maria da Glória é mãe. Sente como mãe, fala como mãe e, como mãe que efetivamente é, diz que nunca abandonaria a sua criança.

A situação é "verdadeiramente dramática"para Maria de Belém, Em declarações aos jornalistas, a candidata disse que os cortes nas pensões por causa dos "abusos" que se verificavam têm de ser controlados. E admitiu mesmo que, em alguns caso, a Segurança Social tem sido "implacável". 

Mais, a ex-ministra, que tem na defesa da economia social uma das suas causas, sublinhou que é tão importante controlar os abusos como ter a sensibilidade para dar às pessoas aquilo a que têm direito.

"Esta situação de dificultar as pensões só porque existiam abusos tem de ser controlada. Exagerou-se. [...] É tão importante controlar os abusos como ser sensível e dar às pessoas aquilo a que elas têm direito."


Faz a defesa dos direitos, sim, mas também apela ao cumprimento dos deveres. Maria de Belém declarou que é preciso "educação cívica". Ou seja, os cidadãos têm de ter a consciência civíca de que não podem requerer uma pensão deste tipo se não há nada que o justifique. 

"É preciso educação cívica. As pessoas têm de perceber que aos seus direitos também correspondem deveres." 


Mas Maria da Glória não foi a única a dirigir-se à candidata para lhe expor uma situação concreta. Fernando Sá também o fez. Em nome de todos os feirantes.
 
O presidente da Associação de Feirantes e Mercados da Região Norte queixou-se das taxas elevadas aplicadas pelas autarquias. E disse-o mesmo na presença do presidente da câmara de Valongo, José Ribeiro.

"O norte e Lisboa têm das mais altas taxas da Europa. Num país pobre."

José Ribeiro bem tentou desvalorizar a situação, afirmando que "não aplicar taxas é demagogia" e que Valongo até tem das taxas mais baixas do país. Mas Fernando Sá continuou a dar recados aos autarcas e exemplificou com o que aconteceu nos últimos dias: com o meu tempo as feiras não se realizaram, mas os feirantes já tinham pago as taxas e o dinheiro não é reembolsado.

Para Fernando Sá, o ainda Presidente da República Cavaco Silva, no seu tempo como primeiro-ministro, era um "perseguidor de feirantes" e, agora, com o governo PSD/CDS voltou-se à estaca zero. Disse que o papel do chefe de Estado é importante pois é ele que dá luz verde a tudo o que é aprovado na Assembleia da República.

"O Presidente da República é importante porque é ele que põe a chancela em tudo o que é aprovado no parlamento."

Á medida que a manhã ia caminhando, vagarosamente, mais pessoas iam chegando ao recinto. Palavras de apoio, abraços, beijinhos e muitas selfies à mistura. Entre as bancas de roupa, frutas e legumes, a candidata presidencial foi recebida com o calor humano que contrastava com o muito frio que se fazia sentir.  "Oxalá ganhe, as mulheres também tem de ir para o poder."

 
Maria de Belém disse-o por diversas vezes: quer ser uma Presidente da República "junto das pessoas". Mas até aqui essa relação de proximidade que tanto tem defendido só tinha acontecido em ambientes controlados- lares, hospitais e instituições. Hoje saiu à rua e é aqui que os candidatos mostram como reagem perante um ambiente imprevisível, onde há rostos, nomes e problemas concretos. E é aqui os candidatos podem escutar as pessoas, algo que pode fazer toda a diferença, como assinalou.

"As pessoas estão sob grande tensão e precisam de expor as coisas que as amarguram. Muitas vezes escutar é importante."


A arruada estava terminada, mas ainda havia muito dia pela frente. E de Valongo seguiu-se para o Minho. Maria de Belém visitou mais uma Misericórdia, desta vez em Vila Verde, e depois almoçou com apoiantes em Fafe. Um comício onde o socialista Vera Jardim, que já tinha estado presente noutras ações de campanha, discursou pela primeira vez  e atacou Sampaio da Nóvoa.

O relógio já marcava para lá das 16:00 quando a comitiva chegou à paragem seguinte: os Bombeiros Voluntários de Riba D'Ave, no concelho de Vila Nova de Famalicão. Maria de Belém quis homenagear os homens e as mulheres que tantas vezes arriscam a vida pelos outros, de forma voluntária.  

Até porque, como criticou a presidente da associação, Maria José Pimenta, "infelizmente os bombeiros só são reconhecidos na época de incêndios".

No final, um momento para o flash: Maria de Belém subiu para um carro da corporação, e porventura embalada pelos ataques que os seus apoiantes têm desferido aos adversários, com a pose de quem parece estar preparada para combater todos os fogos desta campanha.
 

O dia terminou numa cidade que lhe traz muitas memórias: Coimbra, onde estudou Direito. Com o deputado socialista Alberto Martins, também ele um antigo estudante nesta cidade, a candidata esteve reunida com universitários da mítica República da Praça para uma conversa sobre o ensino, os jovens e os efeitos da crise neste domínio.

Aqui, perguntaram à candidata se esta achava que o ensino superior público deveria ser gratuito. Maria de Belém entende que o país "não tem tido recursos para garantir a gratuitidade do ensino superior público", mas que há outros países europeus onde isso acontece e que esta é uma questão que poderia ser levada à mesa das negociações europeias, no âmbito do programa 2020.

Maria de Belém afirmou que, uma vez que Portugal se comprometeu a aumentar os recursos humanos qualificados ao abrigo desse programa, a realidade de crise económica deveria ser espelhada nestas negociações. 

"Não vale a pena discutirem as desigualdades entre os países, quando as políticas concretas não levam ao combate dessas mesmas desigualdades. [...] Acho que devemos fazer uma insistência cada vez maior para mostrar essa realidade [de crise]. Honramos os nossos compromissos, mas não podemos ser boicotados para atingir esses objetivos."


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