Era a primeira arruada da campanha, mas a escolha da hora dificilmente poderia ter sido pior. Maria de Belém chegou à feira da Nazaré em plena hora de almoço, quando os clientes já eram muito poucos e os feirantes começavam a arrumar as bancas. Contato com a população? Quase nenhum. Na terra das ondas gigantes, a candidata mostrou pouco surf nesta maré presidencial.

Maria da Conceição, de 37 anos, foi das poucas pessoas que se dirigiu à ex-presidente do PS. Tinha queixas a fazer. O baixo salário, com quatro flhos a estudar, obrigou-a a emigrar.

"Ganhar 300 euros e conseguir por uma criança na escola? Péssimo, é o que temos em Porugal. [...] Os pobres trabalham sempre. Os pobres ficam cada vez mais pobres e os ricos cada vez mais ricos."


Natural das Caldas da Rainha, Maria da Conceição disse à TVI24 que era feirante, antes de decidir ir para Inglaterra. Está lá há dois anos, com melhores condições de vida.  "Lá consegue-se viver. Aqui não."

Este foi o testemunho que marcou uma arruada que soube a pouco. Poucas pessoas, pouco contato. Apesar de Maria de Belém ter declarado, momentos depois, que seria uma Presidente de República que estaria "junto das pessoas", ainda não foi desta que se viu essa proximidade com o povo.

"A maioria das pessoas não consegue chegar a decisores políticos. Eu estarei junto das pessoas."


E o sol que iluminava a região do Oeste até tinha dado uma ajuda.  "Como sabem não sou eu que faço a agenda", respondeu quando os jornalistas a questionaram sobre a hora escolhida.

Foram precisos seis dias de campanha e muitos quilómetros de estrada para a candidata sair à rua. Porém, este é um facto a que não atribui importância. Maria de Belém desvalorizou a situação, sublinhando que fez várias ações de rua na pré-campanha e que os locais que tem visitado - lares, hospitais, empresas - também proporcionaram contato com as pessoas.

A ex-ministra de António Guterres saberá, no entanto, que esta é uma altura em que a corrida à Presidência aperta, com as eleições cada vez mais próximas, e que a concorrência [Marcelo Rebelo de Sousa e Sampaio da Nóvoa] tem estado muito presente nas ruas. E saberá isto porque aos jornalistas admitiu que, apesar de estar focada na sua campanha, vai acompanhando "o que pode" das campanhas dos restantes adversários.

Porventura inspirada pelo mar de uma vila por onde já passaram alguns dos melhores surfistas mundiais, e que tem em Garrett McNamara o seu grande "embaixador", Maria de Belém considera que o Presidente da República deve colocar o país "na crista da onda". Palavras ditas num almoço com algumas dezenas de apoiantes, entre os quais vários mandários de concelho do distrito de Leiria.

"O Presidente da República deve colocar o país na crista da onda. [...] Sentimos que a nossa voz esmoreceu. Temos de recuperar a nossa força."


Antes da Nazaré, a comitiva tinha começado a manhã na Marinha Grande. Uma cidade com algumas curiosidades: um terreno adversário por ser terra natal de outro candidato presidencial, Henrique Neto, e um local que ficou para a história depois de, nas presidenciais de 1986, uma agressão ao então candidato Mário Soares ter sido decisiva para a vitória do socialista numa segunda volta contra Freitas do Amaral, 

Mas não se falou de Henrique Neto, nem tão pouco de Soares, que apoia o outro candidato da área socialista, Sampaio da Nóvoa. Aqui, Maria de Belém foi saudar um exemplo de empreendedorismo: a empresa de Joaquim Matos, Plimat, 

 
O negócio familiar dedica-se à produção de acessórios para canalizações. Exporta para cerca de 50 países, desde a América Latina à Rússia e por vezes para o Japão. As exportações representam 90% da faturação. E foi mesmo esta capacidade exportadora que a candidata quis salientar e mostrar como exemplo para um país "que tem ser vencedor".

"É com exemplos destes, cumprindo rigorosamente as normas europeias de qualidade e exportando cerca de 90% da sua produção, que Portugal é um país que tem de ser vencedor."


Ainda na Marinha Grande, mais uma sede de campanha inaugurada. Agumas dezenas de apoiantes com bandeiras de Portugal.
   
O dia vai terminar em Santo Tirso com um jantar-comício. Em Viseu, Maria de Belém conseguiu a maior mobilização de apoiantes desta campanha e com Jorge Coelho um dos discursos mais fortes da corrida a Belém.