Marcelo Rebelo de Sousa tentou, esta quinta-feira, durante uma visita à ilha Terceira, nos Açores, desdramatizar a tensão entre a Presidência da República e o Governo, a propósito da comunicação que fez ao país sobre a resposta a dar nos incêndios e da qual resultou a demissão da ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa.

O jornal Público noticia esta quinta-feira que o Governo de António Costa "ficou chocado" com a atitude do Presidente, uma vez que o primeiro-ministro teria informado Marcelo sobre os calendários para apresentar as medidas para defender a floresta e de prevenção dos incêndios.

Questionado sobre o tema, o Presidente da República preferiu mostrar-se preocupado com o “choque” do país e não com o do Executivo.

Há duas maneiras de encarar a realidade. Uma maneira é o diz que disse especulativo de saber quem ficou mais chocado, se A com o discurso de B, se B com o discurso de A, e depois há uma segunda maneira, que é a de compreender que chocado ficou o país com a tragédia vivida, com os milhares de pessoas atingidas", afirmou.

 

Eu entendo que a forma correta é a segunda e que quem olha para a realidade do diz que disse especulativo não entendeu e não entende nada do que se passou em Portugal nas últimas semanas", acrescentou o Presidente.

Marcelo Rebelo de Sousa insistiu que o país, naquela altura, depois dos incêndios de outubro, "esperava naturalmente uma palavra dirigida às vítimas e que espera, com urgência, reparação, reconstrução e olhar para o país atingido".

Marcelo Rebelo de Sousa insistiu que "há uma urgência" na reconstrução, "porque esse país não pode ser esquecido sistematicamente" e porque "faltam menos de dois anos para o termo da legislatura deste parlamento e deste Governo".

Interrogado se a relação de confiança entre os órgãos de soberania Governo e chefe de Estado ficou afetada, Marcelo Rebelo de Sousa voltou a não dar uma resposta direta a esta questão, que desvalorizou, defendendo que "os portugueses esperam que o Presidente coloque o essencial muito acima daquilo que não tem importância nenhuma".

E o essencial são as vidas desaparecidas, são as vítimas que esperam a reconstrução, a reparação, o recomeço da sua existência. Tudo o resto, com o devido respeito, parece-me totalmente irrelevante, totalmente irrelevante", considerou.

Confrontado com o facto de o jornal oficial do PS, Ação Socialista, ter publicado um artigo de opinião do jornalista Simões Ilharco que também critica a sua atuação, acusando-o de encaminhar o sistema político português para o presidencialismo, Marcelo Rebelo de Sousa nada mais quis acrescentar, remetendo para a sua resposta inicial.

O chefe de Estado e Comandante Supremo das Forças Armadas falava no Miradouro da Serra do Facho, na Praia da Vitória, ao lado da Base das Lajes, onde assistiu a manobras do exercício militar "Lusitano 2017".

Ao lado de Marcelo, estava o ministro da Defesa Nacional, José Azeredo Lopes, que escutou toda a resposta do Presidente em silêncio. 

Questionado sobre se também tinha ficado chocado com o discurso de Marcelo Rebelo de Sousa em Oliveira do Hospital, Azeredo Lopes limitou-se a dizer: "Obrigado por perguntar (...) Não, não fiquei chocado e, portanto, evidentemente não vou falar por cima daquilo que o Sr. Presidente disse".

Questionado se se demarca do choque do Governo ou se não houve choque, Azeredo Lopes respondeu: "Nem demarco, nem deixo de demarcar. Eu não falo nem por cima, nem por baixo, nem ao lado do senhor Presidente e acho que o senhor Presidente disse tudo".

O chefe de Estado encontra-se nos Açores desde quarta-feira, e ficará na região até sábado, para visitar as duas ilhas do grupo oriental, Santa Maria e São Miguel, completando assim o périplo que fez em junho pelas outras sete ilhas do arquipélago.

Também o ministro do Planeamento e das Infraestruturas, Pedro Marques, disse hoje que o Governo não discutiu em Conselho de Ministros "estados de alma" ou notícias de jornais, tendo dando prioridade à recuperação dos concelhos afetados pelos fogos recentes.

"Não discutimos estados de alma dos membros do Governo, nem notícias da comunicação social", declarou Pedro Marques, na conferência de imprensa que se seguiu à reunião desta manhã do Conselho de Ministros.

Antes, o secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros, Tiago Antunes, havia também referido que em causa estava uma conferência de imprensa de resumo da reunião dos ministros, não um encontro com os jornalistas para abordar "estados de alma".

"Essa matéria não foi discutida no Conselho de Ministros de hoje. Não houve qualquer tratamento, nem abordagem dessa matéria", referiu Tiago Antunes, questionado sobre a manchete de hoje do Público: "Governo chocado com Marcelo: ‘As coisas estavam combinadas'".