O professor universitário e comentador político Marcelo Rebelo de Sousa disse, na noite de sexta-feira, em Coimbra, que o futuro Presidente da República (PR) terá de ser um fomentador da esperança dos cidadãos.
 

"Numa situação de gestão difícil, aquilo que eu penso que se espera do futuro PR é que, além de cumprir a sua missão da gestão da situação de governabilidade e estabilidade, seja um fomentador de esperança das pessoas", disse Marcelo Rebelo de Sousa, durante um debate em Coimbra.


Intervindo numa sessão intitulada "A Festa e a Política", integrada no programa do Festival das Artes, em resposta a uma pergunta da assistência sobre a contribuição do próximo PR para aproximar as pessoas da política, Marcelo Rebelo de Sousa disse ainda que o futuro Presidente da República "tem de cumprir a missão, que é sensível e depois tem de ser um portador de afetos".
 

"Se [a função do PR] for vivida com alegria, melhor. Se for vivida com cara de cemitério é menos bom mas pode ser que dê resultado, dar esperança com cara fúnebre", ironizou.


Marcelo Rebelo de Sousa disse ainda que o chefe de Estado "não tem de estar metido na governação" nem possuir "projetos extraordinários", como um programa de Governo: "Isso é um verdadeiro perigo, um PR com um programa de governo de salvação nacional, isso não existe, não cabe na Constituição", avisou.
 

O comentador político também estendeu a necessidade dos afetos "depois de quatro anos e meio de crise" às eleições legislativas, frisando que "se há qualquer coisa que está a falhar na campanha legislativa é nem sempre passar esse afeto".


"Há exceções: o primeiro-ministro [Passos Coelho] está a fazer um esforço para fazer passar o afeto, mas fica aquém do vice-primeiro ministro [Paulo Portas] que consegue fazer passar mais a imagem de afeto", apontou.

Já o líder socialista, António Costa, deveria, "na ótica do seu interesse, fazer passar mais essa mensagem", adiantou.

"Mas não é para conquistarem votos. As pessoas fizeram um esforço pelo país, pelas famílias, pelos próximos, e como acontece com um familiar nosso que teve uma dificuldade, temos de lhe dar mimo, temos de dar carinho", defendeu.
 

PR responsabilizou inteiramente os partidos por uma maioria estável


O comentador político Marcelo Rebelo de Sousa disse ainda, em Coimbra, que no discurso que fez ao país, o Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, responsabilizou inteiramente os partidos por um futuro Governo apoiado por uma maioria estável. Marcelo Rebelo de Sousa considerou que o discurso de Cavaco Silva na quarta-feira ao país, em que marcou as eleições legislativas para 04 de outubro, "foi óbvio, mas foi ao contrário do que as pessoas entenderam".
 

"Entenderam que tinha sido igual aos anteriores, e foi, no que respeita à ideia de ser bom haver uma maioria duradoura, coerente e estável, até disse mais, um governo apoiado por uma maioria, coerente, duradoura e estável, o que permite abrir para coligação. (…) Mas depois juntou e isso as pessoas não notaram: essa é uma responsabilidade que cabe inteiramente aos partidos políticos".


Segundo o comentador político e ex-líder do PSD e apontado como eventual candidato à Presidência da República, quando Cavaco Silva diz que a responsabilidade cabe inteiramente aos partidos políticos, está a dizer: "eu não posso violentar os partidos, eu farei o que posso mas depois a bola fica nas mãos dos partidos e são eles quem, para o bem ou para o mal, ficam responsáveis por aquilo que acontecer".
 

"E isto é uma precisão que é nova. Porque tinha-se criado a ideia de que o Presidente, mesmo que encostasse uma carabina ou uma pistola à nuca dos líderes partidários, ia conseguir um acordo. E o que ele quer dizer é não esperem isso de mim, esperem que eu faça tudo o que está ao meu alcance, agora eles é que vão decidir o que vão fazer", sustentou.


Na sua declaração ao país, o Presidente da República considerou desejável que o próximo Governo tenha um apoio maioritário no parlamento e seja “sólido, estável e duradouro”.
 

Para o chefe de Estado, cabe aos partidos a responsabilidade de negociar "uma solução governativa estável e credível" com apoio maioritário no parlamento, face à possibilidade de nenhum deles alcançar maioria.


O Presidente da República apelou ainda a uma campanha eleitoral serena e com elevação, considerando que, no momento que Portugal atravessa, é essencial preservar "pontes de diálogo" entre os partidos.