O chefe de Estado recordou hoje com emoção e prestou homenagem ao antigo presidente do CDS e eurodeputado Francisco Lucas Pires, 20 anos depois da sua morte, definindo-o como "um político singular" que não será esquecido.

Chamava-se Francisco Lucas Pires, partiu ainda não tinha 50 anos e já ficara na nossa história coletiva. Hoje, recordo pessoalmente com indizível saudade o lealíssimo amigo e homenageio como Presidente da República, com renovada admiração, o grande português", afirmou Marcelo Rebelo de Sousa.

O Presidente da República falava numa cerimónia na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, na qual também discursaram, entre outros, o professor universitário de direito e antigo deputado Vital Moreira, o ex-presidente da Comissão Europeia e atual presidente do Banco Goldman Sachs International Durão Barroso e o padre António Vaz Pinto.

Perante a família de Francisco Lucas Pires, Marcelo Rebelo de Sousa recordou as diferentes fases da vida "de um homem singular, de um académico singular, de um político singular".

Era diferente, muito diferente, como pessoa, como patriota, como europeísta", considerou.

Segundo o chefe de Estado, "era difícil de compreender" por ter "ideias cristãs liberais num Portugal de socialismos imparáveis", por procurar "encontrar espaço entre o centrismo, a democracia-social cristã, o conservadorismo" e por ser um "europeísta supranacional, que nem por isso era menos patriota".

"Tudo com um desapego desconcertante para apaniguados como para adversários", prosseguiu, manifestando a certeza de que "a sua memória não passará ", desde logo, "na terra das suas raízes", Coimbra, e no meio académico.

Com a presidente do CDS-PP, Assunção Cristas, na assistência, Marcelo Rebelo de Sousa afirmou que a memória de Lucas Pires perdurará no CDS, "seu partido primeiro, onde criou uma linha própria, um grupo fiel, sem ser seu grupo, uma visão específica de fazer política".

O Presidente da República mostrou-se certo de que o antigo eurodeputado não será igualmente esquecido no Partido Popular Europeu (PPE), "de que foi associado a título individual, estatuto, por natureza, de exceção", nem no Parlamento Europeu, "onde o seu nome figura para sempre".

Referindo-se à adesão de Lucas Pires ao PSD, pela sua mão, em 1997, acrescentou que a sua memória também "não passará naquele outro partido a que aderiu a dias de nos deixar, mas com o qual partilhou desafios comuns, os mais variados, por essa Europa fora".

Antes, Marcelo Rebelo de Sousa recordara este momento de "início da sua segunda aventura partidária" como uma "decisão solitária de um e de outro", que os aproximou "ainda mais" e que ilustra a "vontade de viver depressa" de Lucas Pires, "como se soubesse que tinha os minutos contados".

O chefe de Estado expressou gratidão pelo contributo de Lucas Pires para o direito, a Constituição, a liberdade, a democracia e a identidade cultural de Portugal.

Nascido em Coimbra, no dia 15 de setembro de 1944, Francisco António Lucas Pires iniciou o seu percurso político em 1975 quando aderiu ao CDS, partido do qual foi presidente, entre 1983 e 1985, após ter sido ministro da Cultura do Governo da Aliança Democrática (AD) PSD/CDS chefiado por Francisco Pinto Balsemão.

Licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra, foi deputado à Assembleia da República e eurodeputado, tendo sido o primeiro vice-presidente português do Parlamento Europeu, eleito em 1986, quando Portugal aderiu à então CEE (Comunidade Económica Europeia).

Mais tarde, afastou-se do CDS, quando o partido, liderado por Manuel Monteiro, adotou uma linha eurocética. Em 1997, filiou-se no PSD pela mão de Marcelo Rebelo de Sousa, que na altura era presidente dos sociais-democratas. Morreu em 22 de maio de 1998, vítima de enfarte.