Manuel Alegre acredita que as eleições presidenciais do próximo dia 24 de janeiro podem obrigar a uma segunda volta. Na interpretação que faz sobre a vantagem que Marcelo Rebelo de Sousa leva nas sondagens, o histórico socialista defende que não é nada líquido que o ex-comentador televisivo tenha a vitória garantida à primeira volta e diz mesmo que ele está a “lançar foguetes antes da festa” e que pode ter “uma surpresa”.

Em entrevista no “Jornal das 8” da TVI e na “21ªHora” da TVI24, Manuel Alegre não poupou críticas ao antigo presidente do PSD. Na análise da campanha a Belém o socialista acusou Marcelo de Rebelo de Sousa de estar a “divertir-se no recreio”, mas avisou que o desempenho do “professor” não está a ser o melhor.

"Marcelo Rebelo de Sousa esteve anos a fazer comentários na televisão e isso tornou-o uma pessoa muito conhecida, mas ele está a pôr foguetes antes da festa. Ele está a fazer disto uma espécie de recreio, está-se a distrair e está-se a divertir. Contudo, os debates não lhe correram bem, sobretudo o debate com a Marisa Matias, correu-lhe muito mal”, afirmou.


"Ele quer agradar a toda a gente. Parece que está mais empenhado em agradar à Esquerda e até ao PS do que em agradar ao PSD e ao CDS, até parece que os afasta. Mas, quem se esquece dos seus, corre o risco de os perder. Penso que ele julga que está eleito, mas não há coroações em democracia, não há vencedores antecipados e acho que a coisa não lhe está a correr bem”, defendeu.

Para Manuel Alegre é muito possível que Marcelo Rebelo de Sousa tenha de disputar uma segunda volta das presidenciais, não só porque há muitos candidatos, mas também porque os candidatos do PCP e do Bloco de Esquerda têm capacidade para fixar os eleitorados e, “no fim, tudo soma”, avisou.

“E como são muitos candidatos, se ele [Marcelo Rebelo de Sousa] continua a fazer desta eleição um recreio, pode ter uma surpresa”, reiterou Manuel Alegre.


Questionado sobre se António Guterres seria o candidato do PS que uniria todos os socialistas e que poderia levar Marcelo Rebelo de Sousa a pensar duas vezes sobre a própria candidatura, Manuel Alegre não teve dúvidas em afirmar que essa é a razão por que o PS “se distraiu um pouco da campanha presidencial”.

Recordando as notícias que foram surgindo quando se anunciavam os candidatos presidenciais, colocando António Guterres como possível candidato, Manuel Alegre explicou que "esperou-se tanto pelo Guterres e avisei que ele não seria candidato. (…) Mas as pessoas acreditaram nisso até à última da hora e portanto ficaram órfãs”.

“Mas, sem dúvida nenhuma, se Guterres fosse candidato à Presidência da República, uniria todos os socialistas, não haveria mais dúvidas sobre isso, nem mais discussão. E penso que Marcelo pensaria três vezes. Não tenho a certeza que ele se apresentasse contra Guterres”, referiu.
 

PS "sempre se dividiu" na Presidenciais


Sobre a posição do Partido Socialista na corrida a Belém, Manuel Alegre admitiu que "o PS sempre se dividiu nas presidenciais", mas "o erro" de muitos é terem acreditado "numa possível coabitação com Cavaco Silva".

"Alguns acreditaram que ele seria mais fácil do que eu na Presidência", comentou o antigo candidato presidencial.

“Eu acho que a candidatura presidencial é um ato pessoal. A minha primeira candidatura [como independente em 2006] foi isso: foi uma candidatura muito genuína, pioneira e acho que não volta a repetir-se”, sublinhou. 

Ainda sobre a posição do Partido Socialista nas eleições presidenciais, Manuel Alegre entendeu que, desta vez, o partido dividiu-se sem necessidade.

Alegre frisou que se os socialistas queriam apoiar Sampaio da Nóvoa deviam tê-lo feito logo desde o início. "A partir daí há outra vez uma divisão", justificou.

Maria de Belém, falsa frágil


Mostrando um apoio firme a Maria de Belém, o histórico socialista sublinhou que "ela é uma construtora do Estado Social”.

“Eu apoio Maria de Belém, por uma questão pessoal porque sou leal a quem me foi leal. (…) É uma pessoa de caráter, de convicção. Maria de Belém é uma falsa frágil porque é uma pessoa de convicções, mas é muito firme nessas convicções e alia os valores socialistas, o socialismo democrático, moderado, com os valores sociais da Igreja.”


Para Manuel Alegre, Maria de Belém tem qualidades que a tornam um peso pesado na corrida eleitoral: "Sei que na Presidência da República ela não será uma pessoa redutora, saberá fazer pontes e saberá ir muito para além dos apoios partidários ou dos apoios eleitorais que possa ter.”

Sobre Sampaio da Nóvoa, Manuel Alegre pouco adiantou: “Tenho consideração pelo académico, pelo professor universitário, mas eu não o conheço bem politicamente, nunca travei nenhum combate com ele.”

Sobre a atuação do atual Presidente da República, Manuel Alegre criticou Cavaco Silva por ter tido “dois pesos e duas medidas” perante o anterior Governo.

“Cavaco Silva desfigurou um elemento essencial: o poder de ser árbitro, de moderador, de ser o Presidente dos portugueses e não parecer que é apenas de uma parte. E isso é incompatível com a posição de um Presidente."