Passadas cerca de 30 intervenções no congresso do PS, chegou a vez de Manuel Alegre levantar a plateia, quase tanto como António Guterres, que foi a surpresa do dia. O histórico socialista defendeu os acordos políticos à esquerda. A geringonça, sim, recusando o drama que se faz à volta da nova geometria política portuguesa.

"Quando vinha a entrar uma senhora jornalista perguntou-me se achava que o PS estava muito radicalizado e eu ri-me. O PS é um partido moderado. Quem radicalizou a política portuguesa foi a direita. Fez um PREC [Processo Revolucionário em Curso] do avesso, destruiu o Estado social"

Com o atual Governo, a "esperança" voltou e essa é, até agora, "a maior vitória" da equipa de Costa. Deixou os elogios e acompanhou-os de advertências: há uma "grande exigência e uma grande responsabilidade" pela frente: "Não estamos bloqueados, pelo contrário. (...) Mas é preciso continuar o diálogo no sentido de reforçar no essencial a convergência das esquerdas".

E foi o histórico poeta socialista que respondeu a Passos Coelho, que desafiou o primeiro-ministro para um consenso na Segurança Social. António Costa ontem já disse, no congresso, que não vai cortar 600 milhões de euros nas pensões (uma frase que repetiu vezes sem conta também durante a campanha), mas ficou-se por aí. Não se alongou na resposta ao líder do PSD. Manuel Alegre foi direto ao assunto, sem meias palavras:

"Devo dizer que não precisamos de nenhuma comissão eventual como ontem veio propor Passos Coelho para discutir a Segurança Social. Somos a favor da Segurança Social pública e ele como primeiro-ministro quis privatizar e descredibilizar a Segurança Social pública".

"PS não está manietado pela esquerda, com direita é que seria sequestrado"

Com uma série de ataques à direita, Manuel Alegre disse ainda que o que PSD e CDS-PP fizeram foi "uma contra-reforma profunda, radical, contra o Estado social, os direitos dos trabalhadores", que fizeram empobrecer o país e Portugal regredir vários anos.

"Este governo, com apoio do PCP, BE e Os Verdes, está mesmo a fazer uma política reformista de esquerda. Este reformismo de esquerda é um ato pioneiro hoje, na Europa, que contraria a lógica neoliberal dos cortes de salários e do capital financeiro", argumentou.

A Europa foi, de resto, o outro grande alvo do seu discurso: as "chantagens, ameaças de sanções, tratamento desigual". 

"Não é apenas uma injustiça, é uma subversão do principio constitutivo da União Europeia. Europa partilhada está a dar lugar a uma Europa punitiva. (...) Não sou eurocético, mas também não sou eurobeata""

Congratulou-se que, apesar disso, Portugal tem finalmente sabido fazer finca-pé. Elogiou a "inteligência" de António Costa na abordagem europeia: "Não provoca, mas não se deixa provocar. Defende o interesse nacional, sabe como todos sabemos que há quem não desista de dificultar ao máximo a vida ao Governo português". 

"Este PS incomoda a direita portuguesa e incomoda a direita europeia, mas talvez seja uma inspiração para outros países. Não temos de pedir licença a ninguém para fazermos o governo que entendemos de acordo com o resultado popular", finalizou.

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