A concorrer pela primeira vez a eleições legislativas, a candidatura cidadã Livre/Tempo de Avançar garante que nunca dará a mão à direita e acredita que a partir de 4 de outubro Portugal terá um Governo "ancorado à esquerda".

"Dar a mão à direita está completamente fora de questão, a nossa missão é pôr a direita na oposição e que ela fique lá muito tempo", disse Rui Tavares, fundador do Livre e cabeça de lista por Lisboa, em entrevista à Agência Lusa.

Recusando fazer qualquer "favor à direita para que ela continue a governar", Rui Tavares sublinhou que, segundo todas as sondagens, dois terços dos votos dos portugueses vão para a esquerda.

Por isso, acrescentou, "só por ação ou inação" a direita formará Governo: por "ação" se o PS se juntar à direita para governar com ela, por "inação" se o PCP e o BE recusarem - como já aconteceu no passado - apoiar um Governo de esquerda "e atirarem a governação para os braços da direita".

"A garantia é que o Livre/Tempo de Avançar nem por ação, nem por inação alguma vez dará a mão à direita."


Rui Tavares reconheceu, contudo, que para a concretização de um Governo "ancorado à esquerda" terá que existir uma negociação e que o Livre/Tempo de Avançar irá impor algumas condições para integrar "uma plataforma de entendimento" tão alargada quando possível, nomeadamente o combate à precariedade e às desigualdades.

Além dessas matérias, a reestruturação da dívida, "a bandeira essencial" do Livre/Tempo de Avançar, é de acordo com Rui Tavares uma questão essencial.

"Qualquer Governo que conte com o nosso apoio, qualquer Governo de que nós façamos parte, que esteja sustentado nos nossos votos e nos nossos mandatos, será um Governo que terá de se comprometer por uma visão abrangente da questão da reestruturação."


Por outro lado, a nível nacional, o Livre/Tempo de Avançar irá ainda ‘bater-se' pela questão do sobre-endividamento das famílias e das pequenas e médias empresas, através de um pacote de medidas a que chamou "Recomeçar" e que tem por objetivo resolver as dívidas à banca, ao fisco e à Segurança Social, além de alterações à "injusta" lei das insolvências.

Quanto aos objetivos para dia 4 de outubro, Rui Tavares disse que a candidatura cidadã pretende garantir "uma representação parlamentar tão relevante quanto possível" e, apesar de se escusar a avançar com o número de deputados que gostaria de ver eleitos, fala em "grupo parlamentar", lembrando que "os grupos parlamentares começam com dois deputados".

Porém, até ao dia das eleições, o Livre/Tempo de Avançar terá de lutar contra o seu principal obstáculo: "o principal obstáculo não tem a ver com persuadir as pessoas a votar na candidatura, tem a ver com o facto de mais pessoas conhecerem a candidatura por ser uma candidatura nova".

Para isso, a plataforma vai apostar numa campanha "muito diversa e plural", com a sua "Caravana da Liberdade" a passar em pelo menos 17 distritos, e onde haverá espaço para as ações tradicionais de distribuição de panfletos e comícios, mas também para "coisas diferentes", como as sessões de cinema que aconteceram durante o verão no Algarve.

O objetivo será no dia 4 de outubro "acrescentar votos à esquerda" e "roubar votos à direita", além de ir buscar votos à abstenção e aos votos em branco, porque "muita gente já não tinha em quem votar".

Rui Tavares, que prometeu que se for eleito a sua primeira iniciativa terá que ver com a reinstalação e integração de refugiados - "porque há maneiras de fazer bem feito e formas de fazer que podem não correr tão bem" - disse ainda não ter receio que o chamado ‘voto útil' retire votos ao Livre/Tempo de Avançar.

"O voto na nossa candidatura é duplamente útil, para pôr a direita na oposição e lá deixá-la muito tempo e garantir da forma mais eficaz que a próxima governação vai estar ancorada à esquerda", resume.