O secretário-geral do PS afirmou esta sexta-feira que a principal missão dos cabeças de lista socialistas às legislativas será repor a "confiança minada" pelo Governo e, numa crítica ao PSD, defendeu o princípio da liberdade dos deputados.

Palavras proferidas por António Costa no Salão Nobre da Reitoria da Universidade de Lisboa, depois de a plateia lhe ter cantado em coro os 'parabéns a você' no dia em que completou 54 anos.

Num discurso de 30 minutos, o secretário-geral do PS procurou salientar a solidez dos percursos políticos e profissionais dos seus cabeças de lista às eleições legislativas como um fator decisivo para repor a confiança dos portugueses no futuro do país - uma confiança que disse ter sido "minada" pelo atual Governo ao longo da presente legislatura.

Numa sessão em que estiveram presentes a ex-presidente do PS, Maria de Belém, (apontada como potencial candidata presidencial), o presidente honorário dos socialistas, Almeida Santos, e o líder parlamentar, Ferro Rodrigues, o secretário-geral defendeu a tese de que "não pode haver confiança no país sem uma equipa que mereça confiança".

"O sinal que quisemos dar ao país com a renovação dos cabeças de lista, com este conjunto tão diverso de homens e mulheres (com experiência política ou com um importante percurso profissional) é que temos uma equipa de confiança. Um sinal que continuaremos a transmitir com os lugares nas listas [de candidatos a deputados] que se seguem aos cabeças de lista", disse, numa alusão à Comissão Política do PS da próxima terça-feira, que fechará o processo de escolha dos candidatos a deputados deste partido.
 

"À minha maneira"


Na sua intervenção, feita de improviso, António Costa comentou a um episódio pouco antes contado pelo seu "número um" na lista pelo círculo eleitoral do Porto, o professor catedrático Alexandre Quintanilha.

O conceituado físico disse que uma mulher o abordou num café, recentemente, para lhe pedir que deixasse crescer o seu cabelo grisalho, que classificou como muito bonito.

António Costa usou depois a ironia e comentou, pondo toda a plateia a rir: "Quem foi autarca, como eu, começa sempre com o cabelo bonito, mas o difícil é no ano seguinte continuarem a achar o nosso cabelo bonito".


Numa mudança de tom, saindo do registo de humor, o líder socialista advogou que os portugueses estão "a sofrer anos de enorme depressão e descrença e, caso não se reconstrua a confiança, é impossível mobilizar o país".


"E um país que não se mobiliza perante esta crise é um país que não consegue vencer a crise. Mais do que qualquer estatística, mais do que qualquer modelo económico ou preconceito ideológico, o principal falhanço deste Governo foi ter minado a confiança e de ter traído os portugueses", declarou, recebendo uma prolongada salva de palmas.


Logo depois, voltando a um registo de humor, Costa tentou apontar de uma forma original qual o objetivo: "É preciso que o Alexandre Quintanilha volte daqui a um ano ao mesmo café do Porto e essa senhora lhe diga, Alexandre, o seu cabelo ainda está mais bonito".

Ainda sobre candidatos a deputados, o secretário-geral do PS criticou o PSD por estar a preparar um regulamento para condicionar a atuação dos seus deputados, "sendo expulso quem estiver em divergência".

"Pois, eu quero pedir aos deputados do PS é que nunca calem a divergência", disse, recebendo de novo muitas palmas.


Numa sessão que teve como música de fundo a banda sonora da canção dos Xutos e Pontapés "À minha maneira", António Costa comentou também uma "notícia de jornal" em que se advertia o líder socialista para os riscos de ter muito independentes e professores universitários nas suas listas de candidatos a deputados.

"Mas que perfil de liderança imaginam as pessoas que um líder político deve ter? Então um líder para se afirmar tem de ter medo da qualidade dos outros, tem de ter medo da inteligência e da divergência dos outros? O que marca a boa liderança é ser-se capaz de chamar à vida política aqueles que são mais inteligentes, mais livres, mais capazes e mais exigentes e até melhores do que o próprio líder, porque é isso que dá força a uma alternativa", contrapôs o secretário-geral do PS, como reporta a Lusa. 

A ex-presidente do PS Maria de Belém Roseira recusou-se hoje a comentar o incentivo que recebeu do eurodeputado socialista Francisco Assis para se candidatar à Presidência da República, alegando que a sua prioridade são as eleições legislativas.
 

Maria de Belém suplente nas legislativas, candidata nas presidenciais?


Maria de Belém Roseira, ex-ministra dos governos de António Guterres e que será primeira suplente da lista de candidatos a deputados do PS pelo círculo de Lisboa, falava aos jornalistas no final da sessão de apresentação dos candidatos socialistas às próximas eleições legislativas no Salão Nobre da Reitoria da Universidade de Lisboa.

Confrontada com os elogios que recebeu de Francisco Assis, em declarações ao jornal digital "Observador", que a considerou uma boa candidata presidencial para cobrir a área do centro-esquerda político, Maria de Belém disse que não ouviu essas palavras.

"Vim de Coimbra e estou aqui agora. Não ouvi nada. Este é o tempo das eleições legislativas, como sempre disse", declarou, recusando-se a fazer mais comentários.


A sessão de apresentação dos cabeças de lista socialistas às eleições legislativas começou com uma fotografia de família, da qual estiveram ausentes os "números um" pelos Açores, Carlos César, por se encontrar de férias, e da Madeira, neste caso por não estar ainda escolhido, depois de o nome de Bernardo Trindade ter sido contestado pela estrutura política do PS da Região Autónoma.

O primeiro discurso da sessão coube à cabeça de lista por Setúbal, Ana Catarina Mendes, que salientou a eleição de António Costa como candidato socialista a primeiro-ministro nas eleições primárias do PS de setembro passado.

"António Costa não foi escolhido por um diretório partidário. É o candidato a primeiro-ministro com a maior legitimidade de sempre na história da democracia portuguesa", defendeu a líder da Federação de Setúbal do PS, numa intervenção em que considerou Nuno Crato "o pior ministro da Educação desde o 25 de Abril de 1974".

Antes do discurso final de António Costa, o cabeça de lista do PS pelo Porto, o físico e professor catedrático Alexandre Quintanilha, disse que recebeu com "susto" o convite para passar para a primeira linha da vida política.

Depois de consultar amigos, disse que aceitou o convite formulado pelo secretário-geral do PS e apontou alguns dos motivos: "Tenho 24 anos de presença em Portugal, mas nos últimos três anos começaram as dúvidas de jovens, ou de avós e de pais de jovens se vale realmente a pena investir na educação e no conhecimento".

"A confiança no futuro deste país está a cair dramaticamente", declarou Alexandre Quintanilha.