O secretário-geral do PS defendeu esta quinta-feira que o país não suporta mais a "frustração" de compromissos eleitorais não são cumpridos e que só é possível a comparação entre programas políticos caso se faça a aferição da sua exequibilidade e que não valem desculpas com a "herança"

António Costa falava num almoço promovido pelo Fórum de Administradores de Empresas, onde ficou sentado na mesma mesa dos antigos ministros sociais-democratas Luís Filipe Pereira, Mira Amaral e João Salqueiro. Na sua intervenção, começou por criticar indiretamente o programa eleitoral da coligação PSD/CDS e em que advogou que "o exercício de prudência" carateriza o programa socialista.

Numa iniciativa em que se fez acompanhar pelos economistas e candidatos a deputados pelo PS Mário Centeno, Manuel Caldeira Cabral e Eurico Brilhante Dias, o líder socialista advertiu que o país, na atual conjuntura, "numa fase de depressão, não suporta mais a frustração de programas eleitorais depois não cumpridos".

"Nesta fase da vida nacional, não é possível apresentar um programa sem apresentar contas. No caso do PS foi duro, porque durante muito tempo fomos criticados por não fazermos promessas, mas apresentámos depois um cenário macroeconómico com o estudo do impacto e da exequibilidade de cada medida que propusemos", declarou o secretário-geral do PS.


"Foi um exercício considerado prudente, até mais prudente do que o programa de estabilidade apresentado pelo Governo", completou António Costa no início da sua intervenção, segundo relata a Lusa.

No seu discurso, o secretário-geral do PS defendeu a ideia de que "só é possível comparar programas políticos caso também seja possível comparar a sua exequibilidade" e procurou desmentir a ideia de que as medidas propostas pelos socialistas se caraterizem pela aventura ou pelo risco.

"O exercício desenvolvido já foi sujeito a debate público e a sua credibilidade não foi colocada em causa, prevendo uma trajetória de diminuição de défice e da dívida, por forma a chegarmos a 2019 com um défice de 1,4 por cento e com uma dívida 12 pontos percentuais abaixo da atual. É um exercício particularmente cauteloso, sobretudo se comparado com o Programa de Estabilidade do Governo, que é bastante mais ousado. No indicador base, referente à evolução da taxa de juro da dívida pública, enquanto o cenário do PS não contempla uma redução muito significativa, o Programa de Estabilidade depende de uma redução substancial", indicou.


"Não nos podemos estar sempre a desculpar com as heranças"

O secretário-geral do PS criticou hoje quem se queixa sempre da herança política recebida e considerou mais gravoso para o futuro da Segurança Social o plafonamento proposto pela coligação PSD/CDS do que a redução temporária das contribuições.

Estas posições foram assumidas por António Costa no final de um almoço promovido pelo Fórum de Administradores de Empresas, após questões formuladas pelo antigo ministro social-democrata Mira Amaral, que criticou os governos em início de funções que se queixam sempre de contas mal feitas por parte dos seus antecessores.

"Não nos podemos estar sempre a desculpar com as heranças, eu também já tive heranças e as heranças em política não são aceites a benefício de inventário. Quando temos uma herança, atacamos os problemas e procuramos resolvê-los", começou por responder o líder socialista, concordando com a perspetiva defendida pelo antigo ministro dos executivos liderados por Cavaco Silva.


Depois, numa nota humor, António Costa rematou: "Temos de resolver os problemas que herdamos e deixar também alguns para não haver extinção do posto de trabalho por falta de ocupação".

Neste período do debate, Mira Amaral e António Costa referiam-se a afirmações proferidas pelo Primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, sobre "surpresas" com que se deparou no início da governação, no verão de 2011, sobre o teor do memorando assinado com a troika (Banco Central Europeu, Fundo Monetário Internacional e Comissão Europeia), documento que, segundo ambos, também foi negociado pelo antigo ministro do PSD Eduardo Catroga.

Nas respostas às questões de Mira Amaral, António Costa sustentou ainda que a proposta do PS de reduzir as contribuições para a Segurança Social dos trabalhadores "não é a medida ideal, mas é gradual, temporária e reversível", pretendendo beneficiar financeiramente todas as famílias, mesmo as que estão isentas de IRS.

Neste contexto, criticou a proposta da coligação PSD/CDS no sentido de introduzir o plafonamento horizontal nas contribuições para a Segurança Social.

"Não há comparação entre uma medida de natureza conjuntural que visa relançar a economia nos próximos três anos [proposta do PS] e uma alteração estrutural do financiamento da Segurança Social como o plafonamento [proposto pela coligação PSD/CDS] para o futuro do sistema. Não é possível comparar uma medida que produz efeitos três anos com outra que produzirá seguramente efeitos de retirada de receitas pelo menos ao longo das próximas duas gerações", alegou o líder socialista.