O ex-primeiro-ministro José Sócrates, detido em Évora há mais de dois meses, refutou esta terça-feira o perigo de fuga que o Ministério Público (MP) fundamentou para a prisão preventiva, que considerou «abusiva, despropositada e ilegal».

Em resposta a perguntas formuladas pela SIC, o ex-primeiro-ministro disse que «a insistência nesse absurdo "perigo de fuga" mostra bem o espírito da investigação».

«Nunca fugi de nenhuma dificuldade, sempre as enfrentei», afirmou, acusando o MP de ter avançado «sem provas ou sem que tenha fortes indícios de crimes».

Sublinhando a «intenção persecutória» que lhe moveram, o preso 44 no Estabelecimento Prisional de Évora condenou «as constantes violações do segredo de justiça» e frisou que «a única prova é a prisão».

Mais de um mês depois da entrevista à TVI, a 04 de janeiro, José Sócrates pediu que o MP diga quais são «os crimes concretos» que lhe são imputados.

                        

Sócrates estranha que DCIAP só tenha visto "email" quatro dias depois de enviado

O ex-primeiro-ministro diz, também, não compreender porque razão o DCIAP (Departamento Central de Investigação e Ação Penal) apenas abriu quatro dias depois uma mensagem eletrónica enviada a manifestar disponibilidade para prestar depoimentos no processo judicial.

«O que é absolutamente extraodinário é que esse email, enviado às 15:54 de 21 de novembro, só tenha sido oficialmente recebido pelo DCIAP às 16:04 do dia 25, já depois de decretada a prisão preventiva, sustentada, entre outras, nessa alegação absurda do perigo de fuga».

Sócrates afirmou que o «pequeno truque» de «ignorar o email para sustentar o perigo de fuga, é muito revelador».

«Ainda estou à espera que o senhor diretor do DCIAP [Amadeu Guerra] se digne explicar o que se passou», afirmou.

O ex-primeiro-ministro recordou que, à chegada a Lisboa, a 21 de novembro, proveniente de Paris, foi-lhe comunicada «imediatamente a detenção e nada poderia ter sido feito para a evitar».

«A minha detenção nada teve a ver com justiça, mas com espetáculo. Não se tratou de cumprir um qualquer objetivo jurídico legítimo, mas teatralizar politicamente uma ação judicial», sustentou.

Sócrates justificou a mudança de voo de quinta-feira para sexta-feira, ao final da tarde, com a participação num semanário académico e com «a deslocação do advogado a Paris para uma reunião que não estava inicialmente prevista».

«Francamente, não percebo que suspeitas essas alterações (de voo) possam justificar», acentuou, acrescentando: «Alguém estava a esforçar-se muito para evitar o óbvio: eu ia a entrar (no País) e não a sair».

O ex-primeiro-ministro acusou ainda o Ministério Público (MP) de ter violado «propositadamente o segredo de justiça» e questionou os indícios que lhe são imputados, tais como «o milhão [de euros] descoberto num cofre» que disse nunca lhe ter pertencido, as «malas de dinheiro que iam para Paris» e o «fundo para esconder imóveis» que, assegurou, nunca lhe pertenceram.

Disse ainda que nunca tomou «iniciativa para favorecer o grupo Lena», cujos administradores conheceu «em ações de diplomacia económica», e que «o Governo português empenhou-se» no projeto daquela empresa na Venezuela «como noutros locais».

Sócrates também recusou ter favorecido o amigo de infância Carlos Santos Silva e admitiu que realizou um telefonema para o vice-presidente da Angola «por mera simpatia, para ajudar uma empresa portuguesa», gravação que é um dos fundamentos da acusação para o indício de corrupção.

O ex-primeiro-ministro afirmou ainda que tem «bem presente a conversa» que manteve com Afonso Camões, em que o então presidente do conselho de administração da Lusa o avisou da investigação de que era alvo.

«Reagi a ela com desprezo. Falarei dela, mas no sítio certo, por violação de segredo de justiça», declarou.

                       

Esta é a sexta vez que José Sócrates fala a partir da prisão.

As primeiras declarações de José Sócrates depois de detido no Estabelecimento Prisional de Évora resultam de uma carta enviada ao Público e à TSF. Nessa carta, que ditou ao seu advogado, considerou «falsas, absurdas e infundamentadas» as suspeitas criminais pelas quais foi detido e classificou a sua detenção de «humilhação gratuita».

Mais tarde falaria ao Expresso, por telefone, numa curtíssima declaração, recusando-se a responder a perguntas, que disse responder mais tarde, em que defendeu que «só deixa de ser livre quem perde a dignidade».

É no contexto de uma reportagem da RTP que surge a terceira comunicação de Sócrates a partir da prisão. Foi numa carta de duas páginas, mais uma vez ditada ao seu advogado, em que o ex-primeiro-ministro dá extensas explicações sobre o seu apartamento em Paris. Negou que o apartamento onde viveu em Paris fosse seu, explicando que lhe foi emprestado pelo seu amigo Carlos Santos Silva.

A quarta comunicação de Sócrates é um documento manuscrito entregue ao Diário de Notícias.

Nesse documento, José Sócrates fala num sistema que «vive da cobardia dos políticos, da cumplicidade de alguns jornalistas, do cinismo dos professores de Direito e do desprezo que as pessoas decentes têm por tudo isto».

A quinta vez que falou depois de preso foi numa entrevista à TVI, em que o ex-primeiro-ministro justificou estar a responder a perguntas da TVI por «legítima defesa contra os crimes de violação do segredo de justiça» e «contra um poder obscuro».

Indiciado de corrupção, branqueamento de capitais e fraude fiscal qualificada, José Sócrates foi detido a 21 de novembro, no aeroporto de Lisboa, proveniente de Paris.