O ex-Presidente da República Mário Soares criticou hoje o «anormal aparato fortemente lesivo do segredo de Justiça» na detenção do ex-primeiro-ministro José Sócrates, considerando que o que aconteceu «não pode passar em vão».

Num artigo de opinião publicado hoje no Diário de Notícias, Mário Soares refere que, no «sábado, o país foi confrontado com um acontecimento que deixou todos os democratas preocupados», referindo-se ao «aparato mediático» ocorrido na sexta-feira à noite quando José Sócrates foi detido no aeroporto de Lisboa, após regressar de Paris, França.

«O que foi feito a um ex-primeiro-ministro, com um anormal aparato, fortemente lesivo do segredo de Justiça, não pode passar em vão. Independentemente do que está em causa e da separação de poderes entre a política e a justiça», escreve.


De acordo com o ex-governante, também «não pode passar em vão o espetáculo mediático que a comunicação social tem feito, violando também ela o segredo de Justiça ao revelar factos que era suposto serem conhecidos quando um juiz se pronunciasse, o que não aconteceu».

Mário Soares sublinha que ainda não é conhecido «se foi a Procuradora-Geral da República quem comandou a polícia» na investigação, num artigo escrito aparentemente antes de ser conhecida a aplicação da medida de coação de prisão preventiva a José Sócrates.

Relativamente a outra questão mediática, no artigo de opinião publicado no DN, o antigo Presidente realça «a dignidade» com que o ex-ministro da Administração Interna Miguel Macedo se demitiu, «contra a vontade» do primeiro-ministro, Passos Coelho.

Miguel Macedo demitiu-se no passado dia 16 de novembro, considerando não ter «condições políticas para continuar no cargo», apesar de afirmar «não ter qualquer responsabilidade no caso dos vistos Gold». Anabela Rodrigues substituiu Miguel Macedo no cargo.

De acordo com o ex-governante, Passos Coelho quer manter os ministros que tem, por piores que sejam, «porque tem enormes dificuldades ou mesmo impossibilidades efetivas de os substituir».

O histórico socialista referia-se aos ministros da Justiça, Paula Teixeira da Cruz, da Saúde, Paulo Macedo, da Defesa, José Aguiar-Branco, e da Economia, Pires de Lima.

Mário Soares criticou também o Governo, salientando «a situação do atual executivo e do seu primeiro-ministro, que está próxima do fim, apesar do apoio que tem sido dado sempre que lhe é necessário» pelo Presidente da República, Cavaco Silva.

Diz ainda que o Presidente da República, Cavaco Silva, «nunca quer falar, mas faz sempre o que é conveniente ao Governo, como sucedeu recentemente ao decidir não antecipar as eleições que obviamente o executivo vai perder».

No artigo de opinião, Mário Soares destaca ainda o XX Congresso Nacional do Partido Socialista, que decorrerá no próximo fim de semana.

«O congresso ocorre num período muito grave para a vida dos portugueses, por ação de um Governo que, insensível ao interesse nacional, o conduziu para o abismo, vendendo-se aos mercados», sublinha.


Mário Soares afirma ainda estar convicto de que “vai iniciar-se um novo ciclo com as eleições de António Costa para secretário-geral do partido.