Simões Ilharco, um jornalista reformado, publicou um artigo de opinião no jornal do PS - “Acção Socialista”-, onde acusa o Presidente da República de ter exorbitado “os seus poderes constitucionais” e aconselha a esquerda a unir-se para evitar “a tentação presidencialista de Marcelo, que ameaça a democracia”.

Recorde-se que, também esta quinta-feira, o jornal Público noticia que o Governo de António Costa "ficou chocado" com a atitude do Presidente, uma vez que teria informado Marcelo sobre os calendários para apresentar as medidas para defender a floresta e de prevenção dos incêndios. Uma informação que o Chefe de Estado, de visita aos Açores, tentou desdramatizar, afirmando, no entanto, que "chocado ficou o país com a tragédia vivida".

A diretora do jornal, Edite Estrela já veio demarcar-se do artigo de opinião, mas defendeu que no jornal que dirige "não há censura". Também Carlos César, o líder parlamentar socialista, já veio afirmar que as relações entre o Governo e o Presidente da República "são boas" e "assim devem continuar".

O artigo de opinião, publicado a 25 de outubro, foca-se primeiro na moção de censura apresentada pelo CDS-PP. O título da coluna é "O fracasso da moção de censura do CDS", mas ao fim de poucas linhas o alvo torna-se o morador do Palácio de Belém.

Foi, também, a primeira vez, no Portugal de Abril, que um Presidente da República reclamou, publicamente, a demissão de um ministro e a remodelação do Governo. Marcelo exorbitou, claramente, dos seus poderes constitucionais.”, lê-se no texto.

Em seguida Simões Ilharco sugere a união da esquerda, porque considera que esta é essencial, até, para evitar "uma ditadura":

A esquerda deve estar unida e coesa, para impedir esta caminhada preocupante e perigosa, combatendo a tentação presidencialista de Marcelo, que ameaça a democracia. E o presidencialismo, é bom ter presente, descamba, por vezes, em ditadura."

Para o jornalista reformado as expressões usadas por Marcelo Rebelo de Sousa após a visita às zonas mais afetadas pelo incêndios de 15 de outubro, revelam "demagogia e populismo". 

A afirmação do Presidente de que, devido à tragédia dos incêndios, se sente como tendo levado uma sova monumental é corriqueira e revela demagogia e populismo. Marcelo parece querer assumir-se como homem providencial, como salvador da Pátria, mas olhe que a Pátria está boa e recomenda-se!", escreve Simões Ilharco.

No “Ação Socialista” não há censura

A diretora do jornal oficial do PS, Edite Estrela, já se vei demarcar, esta quinta-feira, das críticas feitas ao Presidente da República, afirmando que "não há censura".

"Como está lá claramente expresso no jornal, os artigos de opinião só responsabilizam os seus autores e mais ninguém. No ‘Ação Socialista' há liberdade de expressão, não há censura. Espero que não estranhem que há liberdade de expressão", disse Edite Estrela aos jornalistas.

Edite Estrela, deputada socialista, falava em declarações aos jornalistas no parlamento, depois de confrontada com o facto de o jornalista Simões Ilharco ter escrito no "Ação Socialista" que o Presidente da República "exorbitou" os seus poderes, revelando "demagogia e populismo".

Interrogada se concorda com o teor do artigo escrito por Simões Ilharco, a dirigente socialista respondeu: "Se a deputada Edite Estrela tivesse essa visão escrevia-a". "Não a escreveu", acrescentou.

Relações entre Governo e Presidente devem continuar “boas”

O líder parlamentar socialista, Carlos César, afirmou hoje à agência Lusa que as relações entre o Governo e o Presidente da República "são boas" e relevantes para o atual quadro de estabilidade política "e assim devem continuar".

Não tenho comentários a fazer à notícia. O que sei é que as relações entre o Governo e o Presidente da República são boas e muito relevantes na estabilidade política que o país vive. E assim devem continuar", afirmou Carlos César, que, na qualidade de deputado socialista eleito pelo círculo dos Açores, vai acompanhar a partir da tarde de hoje a visita de Marcelo Rebelo de Sousa a esta Região Autónoma.

Esta posição foi transmitida por Carlos César, também presidente do PS, depois de confrontado com a notícia publicada pelo Público, segundo a qual o Governo terá ficado "chocado" com o teor da comunicação ao país feito pelo chefe de Estado na sequência dos incêndios que deflagraram no dia 15 de outubro e que provocaram 45 mortos.

Marcelo exigiu "com voz grossa aquilo que já lhe tinha sido comunicado"

Mas, além do artigo de opinião e da manchete do jornal Público, um outro dirigente socialistas também apontou armas a Marcelo Rebelo de Sousa, acusando o Presidente da República de "aproveitamento politiqueiro" da tragédia dos incêndios.

Porfírio Silva, membro do Secretariado Nacional do PS, defendeu, numa publicação no Facebook, que Marcelo Rebelo de Sousa "terá aparecido a exigir com voz grossa aquilo que já lhe tinha sido comunicado [pelo Governo] que estava preparado."

 

Em declarações à Lusa, o membro da direção do PS manteve estas críticas ao chefe de Estado, mas defendeu que "não deve haver uma mudança global de atitude nas relações entre o Presidente da República e o Governo".

Deve haver uma relação institucional positiva entre o Presidente da República e o Governo - e o Presidente da República também tem feito por isso. Mas, temos a liberdade de em cada momento avaliarmos as atitudes de cada um, expressando-a", acrescentou Porfírio Silva.