O antigo Presidente da República Jorge Sampaio disse esta quinta-feira que a União Europeia precisa de encontrar soluções para dar resposta ao «colete-de-forças» em que se encontra, garantindo crescimento económico e mantendo-se assente nos valores em que foi fundada.

Em declarações aos jornalistas depois da cerimónia de atribuição do doutoramento ‘honoris causa’ pela Universidade do Porto, Jorge Sampaio escusou-se a entrar em detalhes sobre situações como a da Grécia e argumentou que a Europa «precisa de encontrar uma linguagem que dê satisfação aos cidadãos em geral porque é disso que se trata».

«A questão está em saber como é que nós saímos deste colete-de-forças e como é que conseguimos crescer economicamente, socialmente mantermos a Europa com o sentido que ela sempre teve desde a sua fundação. As circunstâncias são obviamente diferentes, mas temos que saber encontrar resultados e plataformas de entendimento que a isso permitam, portanto é à Europa no seu conjunto que este desafio está colocado», disse o antigo Presidente da República.

Durante o discurso, Jorge Sampaio constatou que «não obstante se multiplicarem as cimeiras informais, escondendo mal divisões e impotências, a União Europeia assiste hoje a inadmissíveis anátemas morais decretados por alguns Estados-membros e a uma triunfante cultura de ortodoxia financeira que tem conduzido a situações sociais insustentáveis, a uma preocupante deflação e à mácula desencorajadora projetada pelos seus milhões de desempregados».

Ou seja, está-se «longe do tempo em que se conciliava eficácia económica com coesão social e se declinava no plano das decisões, de vários modos, a palavra solidariedade».

Sampaio realçou que não teme «por enquanto» o surgimento de partidos antieuropeus em Portugal, mas disse recear pela Europa em geral.

Momentos antes, durante o discurso no âmbito da cerimónia que contou com a presença de figuras como a do empresário Belmiro de Azevedo, do antigo ministro Miguel Cadilhe ou do presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, Sampaio havia frisado que, apesar de Portugal não ter «conflitos étnicos ou regionais, ou problemas de fronteira, nem contenciosos internacionais», o país possui hoje «extensas feridas sociais e desigualdades (…) a que há que pôr termo».

«Assistimos igualmente ao reaparecer de uma chaga que julgávamos já curada, por nos defrontarmos com o ressurgimento de uma elevada emigração, decerto que sem o dramatismo daquela que nas décadas de sessenta e setenta despovoou o território, mas infelizmente semelhante, quer como indicador da incapacidade nacional de bem explorar os seus recursos humanos desta vez qualificados, ou de atenuar os persistentes bloqueios de desenvolvimentos, quer na tristeza de quem – contra vontade – desiste do país», lamentou Sampaio, como reporta a Lusa.