O eurodeputado comunista João Ferreira defende políticas do Estado de criação de emprego em ciência, o reconhecimento dos bolseiros de investigação como trabalhadores e o investimento público, em geral, sob o risco de a economia ficar obsoleta.

O recandidato da Coligação Democrática Unitária (CDU), que congrega PCP, «Verdes» e Intervenção Democrática, mostrou-se contra o «recurso exclusivo aos fundos da União Europeia».

«Eles [Governo] gostam muito de falar do Estado como se estivessem a gerir uma empresa. Ora, sem investimento público - e estamos agora com um nível de investimento só comparável com a década de 1950 - qualquer empresa está condenada à falência. Sem renovar stocks, sem inovação, torna-se obsoleta e a nossa economia corre o risco de ficar obsoleta», afirmou esta segunda-feira, num encontro com algumas dezenas de bolseiros, na cafetaria do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra.

João Ferreira, licenciado em Biologia e doutorado em Ecologia, foi bolseiro de investigação e um dos fundadores e primeiro presidente da Associação de Bolseiros de Investigação Científica (ABIC), e voltou a citar o nome do secretário-geral socialista, António José Seguro.

«É da maior importância a dinamização do emprego público em ciência. O líder do PS disse que não compete ao Estado criar emprego. Cabe ao Estado ter uma política pública de emprego, nomeadamente nas universidades, unidades, centros de investigação e laboratórios nacionais», contrariou, criticando ainda a opção de remeter a ciência para grandes centros de excelência, normalmente em parceria com «grandes grupos económicos privados, com interesses ao nível da investigação e da tecnologia».

O cabeça de lista da CDU às eleições de 25 de maio reforçou a necessidade de «mudar de Governo», embora «o trabalho precário em ciência não seja problema exclusivo deste último».

«Temos de mudar [de Governo] para impor, através da legislação, o trabalho científico precário», afirmou, relembrando a «carta europeia dos investigadores», segundo a qual estes cidadãos «devem ser encarados como trabalhadores, mesmo quando o trabalho é com vista à obtenção de um grau de doutoramento», por exemplo, em termos de direitos «à segurança social, assistência na doença ou na maternidade».

O também vereador da Câmara Municipal de Lisboa referiu ainda que houve «um 10% no orçamento da União Europeia para Portugal, onde se ia buscar mais dinheiro para a ciência».

«Portugal é um contribuinte líquido do programa-quadro - metemos mais dinheiro do que aquele que lá vamos buscar. Por cada euro que mete, não consegue sequer recuperar esse euro que lá mete, ao contrário de outros países que metem um euro e vão buscar cinco», continuou.

João Ferreira sublinhou ainda o «objetivo da ciência e da investigação», que não é, como defendeu a Comissão Europeia - «a colocação de novos produtos no mercado», mas antes «criar e aplicar conhecimento para ir respondendo a novas situações» porque «desde que o Homem pisa a terra que se confronta com desafios aos quais procura dar resposta».