Por: Catarina Pereira | 30- 3- 2010 20: 42
ACTUALIZADA ÀS 22h47
João Cravinho considera que a «corrupção política é o principal problema de corrupção
no país» e que «está à solta», não existindo ainda mecanismos e procedimentos suficientes para a evitar.
Referindo
que o tráfico de influências «é a principal manifestação» da corrupção política, o autor do chamado «pacote anti-corrupção»
- que foi rejeitado pelo PS - lamentou ter encontrado poucos políticos que «partilhassem esta ideia» e defendeu a criação
de uma «comissão independente» para seleccionar os candidatos aos cargos políticos e públicos.
Para o ex-ministro
socialista, é fundamental «a responsabilização política do Governo». «A Assembleia da República tem de assumir um papel-chave
na luta contra a corrupção e deve formalizar os procedimentos que obriguem à prestação de contas», afirmou na comissão eventual
para o acompanhamento político do fenómeno da corrupção.
Cravinho elogiou os planos de prevenção da corrupção, mas lamentou que o Governo fique de fora, já que «precisa de
uma estratégia anti-corrupção», mas há «falta de vontade política» e de «coerência».
O ex-deputado apresentou três
novas sugestões: em relação aos off-shores propôs que «as entidades de que não se conheça o beneficiário último não
tenham personalidade jurídica»; quanto aos grandes contratos públicos, Cravinho admitiu que «alguns podem precisar de uma
auditoria em tempo real, feita por uma entidade independente»; por último, sugeriu que os cidadãos possam interpor uma acção
em tribunal pela defesa dos interesses financeiros do Estado e que recebam «entre 15 a 20 por cento» do montante caso a decisão
lhes seja favorável.
Lei-quadro da transparência
João Cravinho defendeu que, sem transparência, «a
corrupção beneficiará sempre e proliferará impune», pelo que é necessária uma lei-quadro da transparência, que inclua sanções.
«As violações da transparência têm de ser consideradas ofensas graves à ordem democrática e à boa governação. Temos de agir
sem contemplações», incentivou.
Entre as ofensas mais graves à transparência, Cravinho destacou a negação do direito
à informação pela invocação abusiva do segredo de Estado, que entende que «deve ser criminalizada», e a não entrega da declaração
de rendimentos e património a tempo por parte dos políticos. «Quando as declarações não são entregues, mesmo após a notificação,
não vejo como não se pode aplicar a pena de perda de mandato ou demissão», apontou.
O ex-ministro alertou que esta
lei só pode avançar com a «despartidarização da Administração Pública e com a escolha dos dirigentes por mérito e competência
profissional».
Enriquecimento ilícito que agora é não justificado
Cravinho insistiu ainda na criação
do crime de enriquecimento ilícito, embora agora o apelide de «não justificado» ou «não transparente».
«Esta proposta
enquadra-se no âmbito do princípio da transparência e da lei que estipula a obrigatoriedade das declarações de rendimentos
e patrimónios. Nesta é preciso incluir não só os bens próprios, mas os de que o titular tenha posse, por si ou interposta
pessoa», explicou.
Para o ex-deputado, «se há uma desconformidade entre o que é declarado e o que é exibido, a realidade
é que há um estado de enriquecimento», sendo que não consegue ver «a menor inconstitucionalidade» nesta medida.
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