O secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, afirmou na noite de terça-feira, em Coimbra, que, apesar dos avanços positivos com o Governo PS, ficou patente nestes seis meses o "caráter limitado da atual solução política".

Temos pela frente muita luta a desenvolver e a travar pela defesa, reposição e conquista de direitos dos trabalhadores e do povo. Luta tão mais necessária quanto fica patente em toda a evolução destes meses, apesar dos avanços positivos, o caráter limitado da atual solução política", disse Jerónimo de Sousa, que falava para uma plateia de militantes comunistas num comício, em Coimbra.

Segundo o secretário-geral do PCP, fica também patente "a necessidade de dar cada vez mais força a uma verdadeira política alternativa - a política patriótica e de esquerda que o PCP propõe".

Num discurso em que foram elencados os "avanços" conseguidos nos primeiros seis meses do Governo PS, Jerónimo de Sousa recordou também que "havia condições e era possível ir mais longe, dando resposta a muitos outros problemas".

Outros avanços eram possíveis se fossem aceites e concretizadas as nossas propostas de reversão das PPP [Parcerias Público-Privadas] e das medidas de política fiscal dirigidas ao grande capital", constatou.

No entanto, no entender de Jerónimo de Sousa, falaram "mais altos os condicionamentos das opções do Governo, a sua recusa em se libertar das imposições europeias e de outros constrangimentos externos e o capital monopolista que domina o país".

Os resultados, realçou, estão "aquém do que é necessário na resposta às justas reivindicações de reposição de direitos e melhoria de condições de vida", considerando que as opções do PS "não integram a solução de fundo" que Portugal "precisa para enfrentar os graves problemas com que está confrontado".

Havia condições e era possível ir mais longe na valorização das pensões de reforma, como o aumento de 10 euros" que o PCP propôs, era "possível eliminar já em 2016 as restrições a direitos e rendimentos dos trabalhadores da Administrações Pública" e também "assegurar mais substanciais apoios à produção nacional e aos setores produtivos", defendeu.

Apesar das críticas apontadas ao Governo, Jerónimo de Sousa sublinhou também que o Orçamento do Estado para 2016 é "diferente para melhor dos orçamentos dos últimos anos", congratulando-se com várias "medidas positivas" aprovadas.

Abordando também a questão da precariedade nos vínculos laborais, Jerónimo de Sousa voltou a criticar "alguns partidos que se afirmam de esquerda", não aceitando a "conceção de que estes trabalhadores" tenham "um estatuto próprio de precários".

Para o PCP, apontou, "precários são os vínculos e não os trabalhadores que estão nesta situação".

O comício do PCP realizou-se no Teatro Paulo Quintela da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, no âmbito da campanha nacional do partido "Mais direitos, Mais Futuro, Não à Precariedade".

PPE é o polícia mau e PSD/CDS o polícia bom

Jerónimo de Sousa criticou hoje as ameaças de sanções por défice excessivo, considerando que o Partido Popular Europeu faz o papel de "polícia mau" e PSD e CDS de "polícia bom".

As "ameaças atrás de ameaças" por parte do Partido Popular Europeu (PPE) face a possíveis sanções a Portugal por défice excessivo fazem do PPE o "polícia mau, exigindo drásticas penalizações" para o país, enquanto PSD e CDS-PP fazem "o papel de polícia bom", criticou.

O secretário-geral comunista apontou para Assunção Cristas como exemplo, referindo que a líder centrista afirma agora "que é preciso fazer voz grossa a Bruxelas, depois de quatro anos no governo, sempre a piar baixinho, sempre a falar baixinho".

[PSD e CDS] Não se livram da sua responsabilidade e das consequências das suas políticas para o país, nem tão pouco podem apagar uma postura de subserviência aos ditames de Bruxelas em todos estes anos", asseverou.

Para Jerónimo de Sousa, seria "inadmissível" que a União Europeia "ousasse impor sanções" ao país, penalizando-o primeiro "com as políticas que promoveram e apadrinharam com consequências ruinosas para o país" e, depois, "responsabilizando-o pelas políticas de que são coautores".

O inconformismo dos partidos da direita portuguesa com "a ideia" de que os cortes nos salários e direitos seriam "para vigorar para sempre" estiveram presentes nas "inaceitáveis pressões da União Europeia, acompanhadas e ampliadas pelo PSD e CDS" aquando do debate da proposta do Orçamento do Estado, realçou Jerónimo de Sousa.

Durante o seu discurso, o secretário-geral do PCP destacou a luta contra o trabalho precário e o "abuso" de contratos a prazo e a tempo parcial, voltando também a defender a subida "imediata" do salário mínimo nacional para os 600 euros, a consagração das 35 horas como a jornada semanal de trabalho e o reforço dos meios e competências da Autoridade para as Condições do Trabalho.

Jerónimo de Sousa abordou ainda a necessidade de se acabar com o "grave problema da precariedade que atinge milhares de trabalhadores científicos", propondo a contratação dos investigadores bolseiros e a integração na carreira, de forma a valorizar-se "a camada profissional mais especializada e mais qualificada do País".

O comício do PCP no Teatro Paulo Quintela da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra realizou-se no âmbito da campanha nacional do partido "Mais direitos, Mais Futuro, Não à Precariedade".