O líder comunista, Jerónimo de Sousa, reiterou a tese defendida no jornal «Avante!» a propósito dos 25 anos sobre a queda do muro de Berlim, atestando que «o mundo está pior, mais perigoso».

Em entrevista à Agência Lusa, por ocasião do 10.º ano como secretário-geral do PCP, condenou a «grande operação ideológica por parte dos grandes centros de decisão do capital», ressalvando necessitar de mais tempo para poder aprofundar a sua explicação histórica sobre os diversos eventos que levaram ao desmantelamento do denominado bloco de Leste.

«O perigo da guerra, a exploração e o empobrecimento dos povos estão cada vez mais visíveis. Mesmo no plano da hipocrisia política, os que festejaram a queda do muro de Berlim são os mesmos que, hoje, esquecem e até ficam satisfeitos com a existência de outros muros - políticos, ideológicos, religiosos, sociais, mesmo físicos, por exemplo, aquele que aprisiona o povo palestiniano, erguido por Israel, que o impede do direito a ter um futuro. Passados 25 anos, como está o mundo? Nós avaliamos: está pior, mais injusto, mais perigoso», enunciou.


No texto publicado no órgão de comunicação oficial comunista em 06 de novembro, que motivou numerosas reações desfavoráveis por parte de diversos setores em Portugal, lê-se que há uma «campanha anticomunista de intoxicação da opinião pública, desencadeada a pretexto da passagem de 25 anos sobre a chamada "queda do muro de Berlim"».
 

Segundo Jerónimo de Sousa, «o PCP, durante aquele processo que levou às derrotas do socialismo, fez uma análise objetiva» e, «independentemente de como surgiu aquele muro, como foi feita a partilha da Alemanha - por vontade de Estados Unidos, França e Inglaterra» -, e da «verificação de processos que se demonstraram ser errados», há uma questão «de fundo».


«O direito dos povos à sua soberania, independência e a construírem o seu próprio futuro. Simultaneamente, nada alterou este sonho milenar do ser humano que é libertar-se da exploração do homem pelo homem. Continua a ser a grande questão da época contemporânea», sublinhou.

«Nós consideramos que, paulatinamente, conseguimos vencer preconceitos que ainda existem na sociedade portuguesa em relação ao meu partido. Muitas vezes é difícil. Há manifestações de estímulo, admiração, respeito, mas existe ali, com um grande grau de subjetividade, uma pequena barreira que não é visível, para que as pessoas deem o passo para o voto e a filiação em relação ao PCP, mas temos este capital de confiança», referiu ainda Jerónimo de Sousa, assegurando haver muito maior «influência social» do PCP «do que a sua influência eleitoral».



PCP recusa «juntar trapinhos» a Costa

O dirigente máximo do PCP também recusa «juntar os trapinhos» com o PS em troca de lugares num futuro Governo, criticando o «vazio muito grande» do candidato a primeiro-ministro António Costa.

Sobre a «Agenda para a Década» do novo líder socialista, Jerónimo de Sousa lamentou as «muitas omissões» e também a atitude de «movimentos e pessoas» de esquerda que, «mais que fazerem um caminho para o Governo, estão a fazer um caminho para o PS».

«Esses movimentos, essas pessoas, mais que fazerem um caminho para o Governo, estão a fazer um caminho para o PS. Quem assistiu ao congresso do LIVRE, verificou, claramente, que foi um palco que serviu - ponto alto e conclusão - António Costa, que abençoou esse caminho que o LIVRE pretende fazer. Há um conjunto de siglas, de pessoas com projetos pessoais - que são de há muitos anos, alguns deles -, criando a ideia de uma plataforma de esquerda para juntar as águas para que o afluente vá ter ao PS», condenou o secretário-geral comunista.


Jerónimo de Sousa, que completa esta semana uma década à frente do PCP, sublinhou que o seu partido «não abdica de assumir todas as responsabilidades, incluindo governativas, que o povo português lhe decida atribuir», desde que «seja o povo a atribuir-lhe e não outra força qualquer».

«Não há aqui pequenos arranjos, pequenas benfeitorias, mantendo no essencial as linhas estruturantes da política. Nós propomos ao povo português uma política patriótica e de esquerda que pressupõe ruturas com este caminho para o desastre e um Governo capaz de a concretizar», afirmou.

Para o líder comunista, «há quem pense "vamo-nos deixar disso, juntemos os trapinhos com o PS, sempre iriamos para o Governo", mas para fazer uma política idêntica àquela que está a ser realizada».


«Nós, isso, não fazemos. Não podemos, por ambição de poder, estar a dizer uma coisa e a pensar outra... Arriávamos a bandeira, abdicávamos da política de verdade e íamos, a troco de um ou outro lugar no Governo, fazer aquilo que condenamos e consideramos ser necessário ultrapassar e alterar», insurgiu-se, reiterando «a franqueza» do PCP, «ao contrário de outros que, em nome da esquerda, abdicam» de questões fundamentais.

O líder comunista questionou: «Vão para o Governo fazer o quê, governar para quem?», rejeitando a «ilusão de que bastaria uma junção de forças para resolver os problemas sem a definição de uma política necessária para o país».

Segundo o dirigente do PCP, «o que é mais relevante na proposta do PS, na moção de António Costa, é, de facto, muitas omissões».

«Pode-se empurrar com a barriga para dez anos - a chamada estratégia para a década -, mas há questões de grande atualidade que exigem respostas imediatas e aí há um vazio muito grande», disse.

Sobre outro partido da mesma área política, o Bloco de Esquerda (BE), que este fim de semana viveu uma disputa interna, Jerónimo de Sousa preferiu não «praticar qualquer ingerência ou emitir um juízo de valor em relação aos processos e relações de forças», mas desejou «que o Bloco encontre os seus próprios caminhos».



Sem ser «eterno», Jerónimo de Sousa quer ficar para lá de 2016

 O secretário-geral do PCP, sem ser «eterno», quer manter-se em funções para lá de 2016, assim continuem as «forças, saúde e confiança» dos «camaradas», ao contrário do Governo, que considerou «morto» e merecedor de uma «medida sanitária».

Jerónimo de Sousa sublinhou a necessidade de eleições legislativas antecipadas, assumindo a sua «disponibilidade grande» para um quarto mandato como líder comunista.

«Ao contrário de outros partidos, o secretário-geral não é um órgão. É eleito pelo comité central e a questão da continuação ou substituição não está condicionada ao próprio congresso, que se vai realizar, em princípio, daqui a dois anos», vincou, revelando «o sentimento» por parte de «camaradas e direção» de «continuar a desenvolver as tarefas até ao próximo congresso».


Do dirigente comunista, pela sua parte, «enquanto tiver forças, saúde e confiança dos camaradas», a «disponibilidade é grande», sem esquecer «aqueles que constroem o partido todos os dias e não aparecem nos jornais e televisões».

«É uma decisão nossa. Sem saúde não se faz nada. Em termos de capacidade, física e anímica, de convicção em torno do nosso ideal, não me sinto diminuído. É evidente que não serei eterno, mas aquilo que acolho, de contacto com o partido e com o povo português - muitos não sendo militantes comunistas, amigos do partido ou até mesmo fora desse universo - é que o incentivo é para continuar», afirmou.


O também deputado, com 67 anos, sucedeu a Carlos Carvalhas no 17.º congresso comunista, 2004, em Almada. Carvalhas fora o escolhido para substituir o histórico Álvaro Cunhal, em 1992.

«Se não fosse assim como estou a dizer, eu próprio tomaria a decisão de não continuar. Mas não, sou responsabilizado e estimulado a continuar, com esta forma de ser», resumiu, referindo-se ao «estímulo muito grande para continuar a agir» recebido nos contactos «no terreno, na vida, pessoal, familiar, mas também no plano da sociedade».

Sobre o adversário político mais difícil dos quatro que já enfrentou em posição governativa - Santana Lopes, José Sócrates, Passos Coelho e Paulo Portas -, o líder do PCP frisou não ter «ódios particulares», «rancores» ou «animosidades pessoais» e elegeu a «política de direita» e suas «consequências nos trabalhadores e no povo» como o principal «inimigo» a vencer, «sem nunca fulanizar».

«Mais do que a demissão de um ministro, consideramos fundamental a exigência de demissão deste Governo. Não há resolução com a substituição de ministros à peça. Se não fosse o Presidente da República, que procura segurar por arames este Governo, já teriam sido convocadas eleições antecipadas. É um sentimento que o povo português, hoje, claramente, sente, que o Governo está esgotado, está morto, não tem futuro», criticou, comentando a recente demissão do responsável pela Administração Interna, Miguel Macedo, após a polémica com os vistos gold.


Segundo Jerónimo de Sousa, «estes casos sucessivos de falhanços, escândalos, corrupção - a Justiça, a abertura do ano escolar, com aquela desgraça, o encerramento de tribunais, o não-funcionamento do sistema informático, depois o caso BES/GES, agora este caso de corrupção ao mais alto nível» -, têm efeitos ao nível das instituições e da própria democracia.

«A primeira medida sanitária que se poderia tomar, no plano político, era demitir este Governo e convocar eleições antecipadas. O Presidente da República presta um mau serviço ao país continuando a ser o cúmplice e o suporte deste Governo e da sua política», concluiu.